Friday, June 29, 2012

C4SS - So Long as Government Exists, a Governing Class is Inevitable

ENGLISH
PORTUGUÊS
Center for a Stateless Society
Centro por uma Sociedade Sem Estado
building awareness of the market anarchist alternative
na construção da consciência da alternativa anarquista de mercado
So Long as Government Exists, a Governing Class is Inevitable
Enquanto Existir Governo Será Inevitável uma Classe Governante
Carson on the recurring class theme in social change.
Carson acerca do tema recorrente das classes na mudança social.
Posted by Kevin Carson on May 23, 2012 in Feature Articles
Afixado por Kevin Carson em 23 de maio de 2012 em Feature Articles
It was inevitable, argued English liberal Oliver Brett in his 1921 work A Defence of Liberty, that so-called “state socialism” would become simply another class society — this time with the state bureaucracy in the position of privilege. “So long as Government exists at all” — so went his brilliant quip on the principle — “a governing class is inevitable.” Just as everyone who attended Eton — regardless of their class of origin or what rustic access they originally spoke — “bore the stamp of Eton,” everyone who exercises state power bears the stamp of that power. Government molds everyone who wields its authority into a governing type.
Era inevitável, argumentou o liberal inglês Oliver Brett em sua obra de 1921 Defesa da Liberdade, o assim chamado “socialismo de estado” tornar-se simplesmente outra sociedade de classes — desta vez com a burocracia do estado em posição de privilégio. “Enquanto existir o governo” — assim continuava sua brilhante ironia a respeito do princípio — “será inevitável uma classe governante.” Do mesmo modo que todo mundo que frequentava Eton — independentemente de sua classe de origem ou do rústico sotaque que falasse originalmente — “trazia a marca de Eton,” todos os que exercem o poder do estado exibem a marca desse poder. O governo molda todos os que brandem sua autoridade, criando assim um tipo governante.
What’s more, Brett argued, it was questionable whether the state bureaucracy would really be a new ruling class at all:
Mais do que isso, argumentava Brett: era questionável se a burocracia do estado constituía de fato uma classe dominante nova:
“English history is full of the chameleon qualities of the rich. How quickly the feudal Baron is metamorphosed into the landed aristocrat, and the landed aristocrat into the mine owner and the railway director. We find often the same family names cast for these varied parts across the centuries. And these people will control the new bureaucracy. They know which way the wind is blowing, and they are preparing for the change of direction.”
“A história inglesa está cheia das qualidades camaleônicas dos ricos. Com que rapidez o barão feudal se metamorfoseia no aristocrata latifundiário, e o aristocrata latifundiário no dono de mina e no diretor de ferrovia. A miúdo encontramos os mesmos nomes de família nesses diferentes papéis ao longo dos séculos. E essas pessoas controlarão a nova burocracia. Elas sabem de que lado sopra o vento, e se preparam para a mudança de direção.”
Brett was part of a larger current, in the early years of the 20th century, of writers who applied Pareto’s “circulation of elites” theory to the state socialist movement. It included writers on the Left, like Robert Michels and William English Walling, who drew pessimistic conclusions from the socialist parties’ growing tendencies toward authoritarianism and collusion with the state and capital.
Brett era parte de uma corrente maior, nos primeiros anos do século 20, de escritores que aplicaram a teoria de Pareto da “circulação das elites” ao movimento socialista de estado. Ela incluía escritores da Esquerda, como Robert Michels e William English Walling, que tiravam conclusões pessimistas das crescentes tendências dos partidos socialistas para o autoritarismo e para conluio com o estado e o capital.
Michels argued that genuine majority or rank-and-file control of a large hierarchical institution was impossible, because it would be subverted by the “Iron Law of Oligarchy”: Representatives or delegates would transform their full-time inside control over information and agenda-setting to reduce the de jure authority of those they represented into a mere rubber-stamping function.
Michels argumentava que controle, por genuína maioria ou pelas bases de uma grande instituição hierárquica, era impossível, porque seria subvertida pela “Lei Férrea da Oligarquia”: Representantes ou delegados metamorfoseariam seu controle interno de tempo integral da informação e do estabelecimento de agendas, de modo a reduzir a autoridade de jure daqueles a quem representavam a mera função de endosso.
Walling argued (as did the Distributist Hilaire Belloc in “The Servile State”) that state socialist parties like the Social Democrats and Fabians were being coopted into the service of capital. Democratic socialist movements would by and large give up on the herculean political task of actually seizing control of industry, and would instead choose to leave the industry in capitalist hands while regulating it “in the popular interest.”
Walling argumentava (como fez o distributivista Hilaire Belloc em “O Estado Servil”) que partidos socialistas de estado como os Social-Democratas e os Fabianos estavam sendo cooptados para o serviço do capital. Movimentos socialistas democráticos em sua maioria desistiriam da tarefa política hercúlea de assumir controle efetivo da indústria e, em vez disso, prefeririam deixar a indústria em mãos capitalistas enquanto regulamentando-a “de acordo com o interesse popular.”
In practice, those “progressive” regulations would serve mainly to stabilize the economy in the long-term interests of big business, and use a minimalist welfare state and labor regulations to clean up the worst (and most politically destabilizing) forms of destitution left by the capitalists. As Belloc put it, if only the Fabians’ lust to manage and regiment the underclass were satisfied, they would be quite accommodating about capitalist ownership. So the de facto role of the “democratic socialist” state would be to oversee the economy on behalf of big business.
Na prática, essas regulamentações “progressistas” serviriam principalmente para estabilizar a economia em acordo com os interesses de longo prazo das grandes empresas, e para usar um estado do bem-estar social minimalista e regulamentações do trabalho para acabar com as piores (e mais desestabilizadoras politicamente) formas de destituição deixadas pelos capitalistas. No modo de expressar de Belloc, se tão-somente a sede dos Fabianos para gerir e enquadrar a classe inferior fosse saciada, eles seriam bastante cordatos quanto à propriedade capitalista. Portanto o papel de facto do estado “socialista democrático” seria de supervisar a economia em benefício das grandes empresas.
The historic continuity of the ruling class is another theme that has appeared in many guises. Immanuel Wallerstein and Christopher Hill, both Marxists, argued that a significant minority of the landed ruling class under the late Medieval political economy managed to reinvent itself as agrarian capitalists and negotiate the transition to capitalism, where they survived in such forms as the Whig landed oligarchy in Great Britain. The persistence of bastard feudal forms of concentrated land ownership, through such expedients as large-scale enclosure of the Open Fields, common pasture and waste, and the mercantile system of state finance and chartered monopoly, ensured a great deal of structural continuity between the medieval and early capitalist systems.
A continuidade histórica da classe dominante é outro tema que tem aparecido de várias formas. Immanuel Wallerstein e Christopher Hill, ambos marxistas, argumentaram que significativa minoria da classe dominante latifundiária na economia política medieval deu um jeito de reinventar-se como capitalistas agrários e negociar a transição para o capitalismo, onde sobreviveu assumindo formas tais como a oligarquia latifundiária Whig na Grã-Bretanha. A persistência de formas feudais bastardas de propriedade concentrada da terra, por meio de expedientes tais como cercar em larga escala os Campos Abertos, as pastagens e o lixo comunitários, bem como o sistema mercantil de finança estatal e concessão de monopólio asseguraram em grande parte continuidade estrutural entre os sistemas medieval e capitalista inicial.
A similar continuity bridged agrarian and industrial capitalism, as silent partners in the landed classes provided much of the capital for industrialization and the most successful capitalists bought titles or married into noble families. That continuity between the European landed nobilities and industrial capitalists in the modern era was the thesis of Arno Mayer’s book The Persistence of the Old Regime.
Continuidade semelhante compatibilizou capitalismo agrário e industrial, na medida em que parceiros silentes das classes latifundiárias proporcionaram grande parte do capital para industrialização e os capitalistas mais bem-sucedidos compraram títulos ou casaram-se dentro de famílias nobres. Essa continuidade entre a nobreza latifundiária europeia e os capitalistas industriais na era moderna foi a tese do livro de Arno Mayer A Persistência do Antigo Regime.
Wallerstein, like Brett, feared either that the giant finance-capitalists would manage to install themselves as the new ruling class in control of the postcapitalist state, or that the bureaucratic apparatus would use its control over the economy to live in privilege. The same has been true of left-libertarian critics like Emma Goldman and the post-Trotskyist Frankfurt School, who used terms like “bureaucratic state capitalism” and “bureaucratic collectivism” to dismiss the USSR as a new form of class society.
Wallerstein, como Brett, temia ou que os capitalistas da finança gigante conseguissem instalar-se como nova classe dominante no controle do estado pós-capitalista, ou que o aparato burocrático viesse a usar seu controle da economia para viver em privilégio. O mesmo tem sido verdade acerca de críticos libertários de esquerda como Emma Goldman e a escola pós-trotskista de Frankfurt, que usaram expressões tais como “capitalismo burocrático de estado” e “coletivismo burocrático” para desqualificar a URSS enquanto nova forma de sociedade de classes.
If there’s anything to such analyses — and I believe there is — we should take a long, hard look at whether state socialism (i.e., a system in which genuine working class political and economic power is exercised through the state) is even possible.
Se há qualquer sentido nessas análises — e acredito que há — deveríamos verificar de modo extenso e rigoroso se o socialismo de estado (isto é, um sistema no qual poder político e econômico genuíno da classe trabalhadora é exercido por meio do estado) é sequer possível.
Murray Bookchin, in his multivolume work The Third Revolution, presented a historical typology of revolution in which, in the course of a revolution, popular struggle by working people themselves gave birth to all sorts of decentralist, self-managed, liberatory institutions like soviets and workers committees. But in every case, once a revolutionary party had firmly established itself in the capital and purged the state of its rivals, it proceeded either to suppress working class organs of self-management or to coopt them as top-down transmission belts for state policy.
Murray Bookchin, em sua obra de vários volumes A Terceira Revolução, apresentou uma tipologia histórica da revolução na qual, no curso de uma revolução, a luta popular pelos próprios trabalhadores resultou em todo tipo de instituições descentralistas, autogeridas, liberatórias como os sovietes e as comissões de trabalhadores. Em todos os casos, porém, uma vez um partido revolucionário tendo-se estabelecido firmemente no capital e purgado o estado de seus rivais, tratou de ou suprimir órgãos de autogestão da classe trabalhadora, ou de cooptá-los como correias de transmissão de cima para baixo da política do estado.
That’s what happened when Lenin liquidated the other parties of the Left in his governing coalition, suppressed the Workers’ Opposition, and put down the Kronstadt mutiny. It’s what happened in Spain, when the Communist-dominated government in Madrid set up its own Soviet-trained OGPU unit and showed its willingness to lose to Franco in preference to tolerating anarchists in Catalonia.
Foi o que aconteceu quando Lenin liquidou os outros partidos da Esquerda em sua coalizão de governo, suprimiu a Oposição Trabalhadora, e reprimiu o motim de Kronstadt. Foi o que aconteceu na Espanha, quando o governo dominado pelos comunistas em Madri estabeleceu sua própria unidade OGPU treinada pelos sovietes e deixou clara sua disposição de ceder a Franco em vez de tolerar anarquistas na Catalunha.
In essence, it’s the cyclical phenomenon described by Orwell’s fictional “Emanuel Goldstein”: The high and middle eternally jockeying for power over the low, with the middle in each revolution enlisting the help of the low long enough to oust the old ruling class and set themselves up as the new one.
Em essência, é o fenômeno cíclico descrito pelo ficcional “Emanuel Goldstein” de Orwell: Os altos e os médios eternamente competindo pelo poder sobre os baixos, com os médios, em cada revolução, obtendo a ajuda suficiente dos baixos para derrubar a velha classe dominante e estabelecerem-se como a nova.
Since the rise of the state as an instrument of economic exploitation on behalf of a ruling class, there have been endless attempts to achieve justice through revolutionary seizure of the state — each one ending in failure and disillusionment. Ending injustice and exploitation through machinery which is purpose-built for injustice and exploitation is doomed. To repeat Brett’s observation: “So long as government exists, a governing class is inevitable.”
Desde a ascensão do estado como instrumento de exploração econômica a serviço de uma classe dominante houve infindáveis tentativas de obtenção de justiça por meio de tomada revolucionária do estado — cada uma das quais terminando em fracasso e desilusão. Acabar com injustiça e exploração por meio de instrumento criado com o objetivo de injustiça e exploração é algo fadado ao fracasso. Para repetir a observação de Brett: “Enquanto existir governo, será inevitável uma classe governante.”
So maybe we need to do it different this time.
Assim, talvez precisemos fazer alguma coisa diferente desta vez.
Citations to this article:
Citações deste artigo:
Kevin Carson, So Long as Government Exists, a Governing Class is Inevitable, Infoshop News, 23/05/2012
Kevin Carson is a senior fellow of the Center for a Stateless Society (c4ss.org) and holds the Center's Karl Hess Chair in Social Theory. He is a mutualist and individualist anarchist whose written work includes Studies in Mutualist Political Economy, Organization Theory: A Libertarian Perspective, and The Homebrew Industrial Revolution: A Low-Overhead Manifesto, all of which are freely available online. Carson has also written for such print publications as The Freeman: Ideas on Liberty and a variety of internet-based journals and blogs, including Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation, and his own Mutualist Blog.
Kevin Carson é integrante sênior do Centro por uma Sociedade sem Estado  (c4ss.org) e titular da Cadeira Karl Hess do Centro.  É anarquista mutualista e individualista cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa:  Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e diversos periódicos e blogs na internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.



Wednesday, June 27, 2012

Americas South and North - More than Victims on the International Day in Support of Victims of Torture

ENGLISH
PORTUGUÊS
Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
More than Victims on the International Day in Support of Victims of Torture
Mais do que Vítimas no Dia Internacional de Apoio a Vítimas de Tortura
June 26, 2012
26 de junho de 2012
Today, June 26, is what the UN recognizes as the International Day in Support of Victims of Torture. If you’ve followed this blog for a while, or even a couple of months, you’ll have noticed that we write a lot on torture, political violence, and human rights violations in Latin America. The region has certainly seen its share of these atrocities.
Hoje, 26 de junho, é aquele que as Nações Unidas reconhecem como Dia Internacional de Apoio a Vítimas de Tortura. Se você tiver acompanhado este blog por algum tempo, ou mesmo alguns meses, terá notado que escrevemos muito acerca de tortura, violência política e violações de direitos humanos na América Latina. A região certamente já teve seu quinhão dessas atrocidades.
The UN’s website says, “Torture seeks to annihilate the victim’s personality and denies the inherent dignity of the human being.” This reminds me of a similar phrase I read in a 1990 publication of the mental health team for one of Chile’s most well-known human rights groups, the Corporation for the Defense of the Rights of the People (CODEPU): “All torture is psychological torture.” This simple phrase, while to some people may seem self-evident, broke down the dichotomy between physical torture and psychological torture and maintained that long after the physicial pain of torture has left the body, the psychological wounds remain.  We see this throughout Latin America as individuals and societies try to make sense of the violent past, even as state violence and discrimination against marginalized groups persist. Yet we can also see glimpses of hope and healing as well.
O website das Nações Unidas diz: “A tortura busca aniquilar a personalidade da vítima e nega a dignidade inerente do ser humano.” Isso me lembra de uma frase similar que li numa publicação de 1990 acerca da equipe de saúde mental de um dos mais conhecidos grupos de direitos humanos, a Corporação para Defesa dos Direitos das Pessoas (CODEPU):  “Toda tortura é tortura psicológica.” Essa simples frase, embora para algumas pessoas possa parecer evidente, desfez a dicotomia entre tortura física e tortura psicológica e defendeu que muito depois da dor física da tortura ter deixado o corpo, as feridas psicológicas continuam. Vemos isso em toda a América Latina, com indivíduos e sociedades tentando encontrar inteligibilidade no passado violento, enquanto a violência e a discriminação de grupos marginalizados, por parte do estado, persistem. No entanto, podemos também ver vislumbres de esperança e regeneração.
This past week, I conducted interviews with former political prisoners of Pinochet’s dictatorship in Chile. These men and women had been tortured, held for over a year in prison, and one woman gave birth in prison and kept her daughter with her until her release a year and a half later. It was obvious that each of them had come to terms with the experience of violence in different ways and to varying degrees, and the memory of it–mainly the psychological aspects–still haunts them.  Yet they are determined not to remain “victims.” They do not deny that terrible things happened to them, and they do not wish to forget completely. In fact, they told me their stories so more people could learn about that part of Chile’s past. They just don’t want the dictatorship to have the power to keep them in an intransigent state of suffering.
Na semana passada conduzi entrevistas com ex-prisioneiros da ditadura de Pinochet no Chile. Esses homens e mulheres haviam sido torturados, mantidos por mais de ano em prisão, e uma mulher deu à luz na prisão e manteve sua filha consigo até sua libertação ano e meio depois. Ficou óbvio que cada uma dessas pessoas havia encontrado alguma fórmula de convivência com a experiência de violência, de diferentes maneiras e em graus variados, e a memória respectiva – principalmente os aspectos psicológicos – ainda as persegue. No entanto, elas estão decididas a não permanecer sendo “vítimas.” Elas não negam ter acontecido coisas terríveis com elas, e não desejam esquecer completamente. Na verdade, elas contaram-me suas histórias a fim de mais pessoas poderem saber dessa parte do passado do Chile. Só não querem que a ditadura tenha o poder de mantê-las em intransigente estado de sofrimento.
So while we think of “victims of torture,” we should not pity them the way we pity a helpless animal, because that is the last thing these former militants, at least, would want (and I am speaking in the context of Latin America). We should, instead, realize how strong they are as they manage their own memories in everyday life. And we shouldn’t forget that the tortured have been given the immense responsibility of speaking for the executed and disappeared, who, for a long time, were held up as the greatest martyrs while survivors of torture shouldered the burden of marginalization, exile, and memory.
Então, embora pensemos nas “vítimas da tortura,” não deveríamos apiedar-nos delas da maneira como nos apiedamos de um animal indefeso, porque essa é a última coisa que esses antigos militantes, pelo menos, desejariam (e estou falando no contexto da América Latina). Deveríamos, em vez disso, compreender o quanto essas pessoas são fortes ao administrarem suas próprias memórias na vida diária. E não deveríamos esquecer-nos de que aos torturados foi legada a imensa responsabilidade de falar pelos executados e desaparecidos os quais, por longo tempo, foram exalçados como os maiores mártires enquanto os sobreviventes da tortura carregavam o fardo da marginalização, do exílio e da memória.
In short, the victims of torture are much, much more than victims.
Em suma, as vítimas da tortura são muito, muito mais do que vítimas.

Monday, June 25, 2012

Americas South and North - On This Date in Latin America – May 5, 1862: The Battle of Puebla (“Cinco de Mayo”)

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Americas South and North
Américas Sul e Norte
A Look at History and Issues from Tierra del Fuego to the Arctic.
Um Olhar Voltado para História e Questões da Terra do Fogo ao Ártico.
On This Date in Latin America – May 5, 1862: The Battle of Puebla (“Cinco de Mayo”)
Nesta Data na América Latina – 5 de Maio de 1862: A Batalha de Puebla (“Cinco de Mayo”)
May 5, 2012
5 de maio de 2012
One hundred and fifty years ago today, Mexican armed forces defeated an invading French army near the city of Puebla. Contrary to what many in the general public think, the battle had nothing to do with Mexican Independence. However, while the victory did not prevent the French from occupying Mexico from 1862 to 1867, it did reinforce a growing nationalism in nineteenth-century Mexico and became a key national holiday in Mexico (though not nearly as major a celebration as Mexico’s actual Independence Day, celebrated on September 16).
Há exatamente cento e cinquenta anos as forças armadas mexicanas derrotaram um exército invasor francês perto da cidade de Puebla. Contrariamente ao que muitas pessoas do público em geral pensam, a batalha nada teve a ver com a independência mexicana. Entretanto, embora a vitória não tenha impedido os franceses de ocuparem o México de 1862 a 1867, potenciou crescente nacionalismo no México do século dezenove e tornou-se feriado nacional decisivo no México (embora nem de perto comemoração tão importante quanto o real Dia da Independência do México em 16 de setembro).
Painting - A portrayal of the Battle of Puebla, where on 5 May 1862, Mexican forces who were outnumbered defeated invading French troops, forestalling (though not preventing) the French occupation of the country.
Quadro - Representação da Batalha de Puebla onde, em 5 de maio de 1862, forças mexicanas numericamente inferiores derrotaram tropas francesas invasoras, atrasando (embora não impedindo) a ocupação do país pelos franceses.
The context of the battle dated back to the 1850s. After the loss of half of its territory in the Treaty of Guadalupe Hidalgo and the sale of more land in the Gadsden Purchase of 1853, Mexican liberals finally removed centralizing conservatives from power in 1855, ushering in La Reforma (“The Reform”). With a new constitution in 1857, Mexican liberals, led by Benito Juárez, a Zapotec from Oaxaca, implemented liberal reforms that seized Church lands, provided universal male suffrage, guaranteed freedoms of the press, speech, petition, assembly, and education, and advocated a decentralized federalist system, among other things.
O contexto da batalha remonta aos anos 1850. Depois da perda de metade de seu território pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo e a venda de mais terra na Compra de Gadsden de 1853, os liberais mexicanos finalmente tiraram do poder conservadores centralizadores em 1855, introduzindo La Reforma (“A Reforma”). Com nova constituição em 1857, liberais mexicanos, liderados por Benito Juárez, zapoteca de Oaxaca, implementaram reformas liberais que confiscaram terras da Igreja, legalizaram sufrágio universal masculino, garantiram liberdade de imprensa, de palavra, de petição, de reunião e de educação, e defenderam um sistema federalista descentralizado, entre outras coisas.
Portrait - Benito Juárez, the liberal leader who became President of Mexico in 1858 and who continued to serve in exile. After the removal of French forces in 1867, Juárez continued to serve until his death in 1872.
Retrato - Benito Juárez, o líder liberal que se tornou Presidente do México em 1858 e que continuou a governar no exílio. Depois da expulsão das forças francesas em 1867, Juárez continuou a governar até morrer em 1872.
However, Mexican conservatives did not go quietly into the night, and by 1858, Mexico was embroiled in a civil war with two parallel governments, one liberal and one conservative. While the liberals were ultimately triumphant in defeating conservative forces and implementing even greater reforms, including separation of church and state, by 1860, the Mexican economy was in shambles, with a monthly deficit of $400,000 per month in 1861. Adding to the troubles, Mexico still had unpaid loans to Great Britain, Spain, and France, but did not have the funds in the treasury to repay those loans; thus, in July of 1861, Juárez announced Mexico was suspending its payments for two years. The European creditors did not take this news well, and Great Britain, Spain, and France decided to seize the port of Veracruz and collect customs receipts in order to pay off the loans.
Os conservadores mexicanos, porém, não sumiram silenciosamente na noite e, em 1858, o México foi envolvido numa guerra civil com dois governos paralelos, um liberal e um conservador. Embora os liberais tenham por fim triunfado, derrotando as forças conservadoras e implementando reformas ainda mais amplas, inclusive separação de igreja e estado, em 1860 a economia mexicana estava destroçada, com déficit de $400.000 dólares por mês em 1861. Acrescentando-se aos problemas, o México ainda tinha empréstimos não pagos contraídos com Grã-Bretanha, Espanha e França, mas não tinha fundos no tesouro para pagar esses empréstimos; assim, em julho de 1861, Juárez anunciou estar o México suspendendo seus pagamentos por dois anos. Os credores europeus não receberam euforicamente a notícia e Grã-Bretanha, Espanha e França resolveram tomar o porto de Veracruz e coletar receitas alfandegárias para pagamento dos empréstimos.
While Great Britain and Spain were content with this approach, French ruler Napoleon III had grander designs. He dreamed of a global empire like the one his uncle, Napoleon Bonaparte, had tried to create, dreams that his wife encouraged. Napoleon III had his eyes on the Americas, and on Mexico specifically, where he hoped to construct a canal that would connect the Atlantic and Pacific oceans across the isthmus of Tehuantepec. With the United States embroiled in civil war beginning in April of 1861, Napoleon III saw his opportunity to begin his empire-building with relatively little opposition from the United States. However, not wanting to leave France, Napoleon III convinced Austrian Archduke Maximilian Habsburg to serve as the ruler of a Mexican empire in his stead, insisting that the Mexicans would welcome him with open arms. When Great Britain and Spain learned of Napoleon III’s intentions, they both withdrew from Mexico, leaving French forces to march on Mexico City.
Embora a Grã-Bretanha e a Espanha tenham-se dado por satisfeitas com essa abordagem, o governante francês Napoleão III tinha planos mais ambiciosos. Sonhava com um império global como o que seu tio, Napoleão Bonaparte, tentara criar, sonhos que a mulher dele estimulava. Napoleão III tinha seus olhos voltados para as Américas, e especificamente para o México, onde esperava  construir um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico através do istmo de Tehuantepec. Com os Estados Unidos engolfados em guerra civil que começara em abril de 1861, Napoleão III enxergou sua oportunidade de começar construção de império com relativamente pouca oposição dos Estados Unidos. Entretanto, como não desejava sair da França, Napoleão III convenceu o Arquiduque austríaco Maximiliano Habsburg a tornar-se governante do império mexicano em seu lugar, insistindo em que os mexicanos dar-lhe-iam as boas vindas de braços abertos. Quando Grã-Bretanha e Espanha ficaram sabendo das intenções de Napoleão III, retiraram-se ambas do México, deixando as forças francesas marchar para a Cidade do México.
Photo - A photo of Maximilian I (and his typically-amazing nineteenth-century facial hair). Maximilian attempted to govern Mexico between his arrival in 1864 and his execution in 1867.
Foto - Foto de Maximiliano I (e seus tipicamente estupendos pelos faciais). Maximiliano tentou governar o México entre sua chegada em 1864 e sua execução em 1867.
In preparing for the invasion, the French displayed the type of arrogance that would make their defeat even more humiliating and, looking backwards, more than a little deserved. One pompous aristocratic commander wrote on April 25 that “we are so superior to the Mexicans in race, organization, morality, and devoted sentiments that I beg your excellency to inform the Emperor [Napoleon III] that as the head of 6,000 soldiers, I am already master of Mexico.” Unfortunately for him, 4,500 Mexican troops begged to differ regarding mastery of their country, and they had dug in near the city of Puebla to defend their homeland. Having lost so much territory after the US invasion in 1846, Mexicans were not willing to repeat the experience with the French.
Em preparando-se para a invasão, os franceses exibiram o tipo de arrogância que tornaria sua derrota ainda mais humilhante e, olhando-se para trás, mais do que apenas um pouco merecida. Pomposo comandante aristocrático escreveu, em 25 de abril, que “somos tão superiores aos mexicanos em raça, organização, moralidade e sentimentos de dedicação que solicito a vossa excelência informar ao Imperador [Napoleão III] que, como chefe de 6.000 soldados, já sou o senhor do México.” Infelizmente para ele, 4.500 soldados mexicanos pediram vênia para discordarem dele no tocante a quem era o senhor de seu país, entrincheirando-se perto da cidade de Puebla para defenderem seu torrão natal. Havendo perdido tanto território depois da invasão estadunidense de 1846, os mexicanos não estavam dispostos a repetir a experiência com os franceses.
Thus it was that, on May 5, 1862, General Charles de Lorencez moved on Puebla, where Mexican forces had prepared defenses. Erroneously expecting popular support that never would materialize, Lorencez launched his assault, throwing over 6,000 troops at the outgunned and undermanned Mexican forces. However, Mexican resistance was fierce, and after a series of tactical mistakes, Lorencez withdrew from the battlefield, leaving behind 462 dead French soldiers. The Mexicans, meanwhile, had only lost 83 in the fighting. Mexicans were understandably proud, as they had defended their homeland and defeated a European army equipped with better weapons. The victory on May 5 was seen as a triumphant victory by and for the Mexican nation. Although the French forces would ultimately occupy Mexico City, the victory became a keystone in national identity, and a date that Mexicans would continue to celebrate in an attempt to reinforce their own identity as a Mexican nation for generations to come.
Assim foi que, em 5 de maio de 1862, o General Charles de Lorencez lançou-se contra Puebla, onde as forças mexicanas haviam preparado defesas. Na errônea expectativa de obter apoio popular que nunca se materializou, Lorencez deflagrou seu ataque, lançando mais de 6.000 soldados contra as menos armadas e menos numerosas forças mexicanas. Entretanto, a resistência mexicana foi ferrenha e, após uma série de erros táticos, Lorencez bateu em retirada do campo de batalha, deixando 462 soldados franceses mortos. Os mexicanos, por sua vez, haviam perdido apenas 83 soldados na luta. Os mexicanos ficaram compreensivelmente orgulhosos, pois haviam defendido seu torrão natal e derrotado um exército europeu equipado com melhores armas. A vitória de 5 de maio foi vista como vitória triunfal pela e para a nação mexicana. Embora as forças francesas viessem a finalmente ocupar a Cidade do México, a vitória tornou-se fundamental para a identidade nacional, e uma data que os mexicanos continuariam a comemorar na tentativa de reforçar sua própria identidade como nação mexicana por gerações por vir.
Meanwhile, for the French, the defeat was a disaster. Much of the world, including the French, had expected a quick triumph. The defeat left the French humiliated and delayed their takeover of Mexico as Napoleon III had to send more troops; Maximilian I would not arrive to govern until 1864. Additionally, once he arrived, he quickly began implementing liberal reforms that many of his conservative Mexican supporters had detested, even while he and French occupation forces continued to use repressive measures against  liberal forces who fought against French occupation. When French Colonel Jean-Charles Dupin was recalled to France to explain why he hanged prisoners by their necks until they were dead, he replied that his approach had been quite civilized when compared to his colleagues, who often hanged Mexican prisoners upside-down and facing the sun, leaving them to die of thirst. This level of  brutality from French forces only aided Juárez’s government-in-exile, lending the liberals who resisted the Conservatives and Maximilian I greater support and legitimacy.
Por outro lado, para os franceses a derrota foi um desastre. Grande parte do mundo, incluindo os franceses, havia esperado rápido triunfo. A derrota deixou os franceses humilhados e atrasou sua tomada do México, visto que Napoleão III teve de mandar mais soldados; Maximiliano I só chegaria para governar em 1864. Além disso, ao chegar, tratou de rapidamente implementar reformas liberais que muitos de seus partidários mexicanos conservadores detestaram, apesar de ele e as forças francesas de ocupação terem continuado a usar medidas repressoras contra forças liberais que combatiam a ocupação francesa. Quando o Coronel francês Jean-Charles Dupin foi chamado de volta à França para explicar por que havia pendurado prisioneiros pelo pescoço até morrerem, ele respondeu que sua abordagem havia sido bastante civilizada em comparação com a de seus colegas, que amiúde penduravam prisioneiros de cabeça para baixo de rosto voltado para o sol, deixando-os morrer de sede.  Esse nível de brutalidade das forças francesas só ajudou o governo de Juárez no exílio, rendendo aos liberais que resistiam aos Conservadores e a Maximiliano I maiores apoio e legitimidade.
By February 1867, Juárez’s forces had pushed back, and French troops left Mexico. However, for whatever reason, Maximilian I remained in Mexico in spite of liberal forces greatly outnumbering conservative forces and in spite of the fact that Napoleon’s support had wavered. In May of 1867, Maximilian I was captured, judged in a court-martial, and sentenced to death. Cultural and political elites throughout Europe, including Victor Hugo and Giuseppe Garibaldi, pleaded for clemency for the Habsburg. However, while Juárez himself had no personal animosity towards Maximilian I, he felt that to commute Maximilian I’s sentence after the deaths of thousands of Mexican during the Intervention would be unjust. Additionally, Juárez felt that the world would only respect Mexican sovereignty and autonomy were the execution to proceed. Thus, on June 19, 1867, alongside two generals, Maximilian I was executed by firing squad.
Em fevereiro de 1867 as forças de Juárez forçaram o recuo dos franceses, e as tropas francesas deixaram o México. Entretanto, qualquer seja a razão, Maximiliano I permaneceu no México apesar de as forças liberais superassem grandemente em número as forças conservadoras e a despeito do fato de o apoio a Napoleão ter-se tornado oscilante. Em maio de 1867 Maximiliano I foi capturado, julgado em corte marcial e sentenciado à morte. Elites culturais e políticas em toda a Europa, inclusive Victor Hugo e Giuseppe Garibaldi, pediram clemência para o Habsburg. Entretanto, embora Juárez pessoalmente não nutrisse animosidade em relação a Maximiliano I, entendeu que comutar a sentença de Maximiliano I depois da morte de milhares de mexicanos durante a Intervenção seria injusto. Além disso, Juárez entendeu que o mundo só respeitaria a soberania e a autonomia mexicana se a execução acontecesse. Assim, em 19 de junho de 1867, juntamente com dois generais, Maximiliano I foi executado por pelotão de fuzilamento.
Drawing - A drawing done shortly after the execution of Maximilian I.
Desenho - Desenho feito pouco depois da execução de Maximiliano I.
While the French Intervention caused significant turmoil and disruption at all levels of Mexican society, economy, and politics, the ultimate removal of the French was seen as a vindication of the liberal Constitution of 1857. Mexican conservatives who had supported the Intervention were so discredited that the Juárez government was able to begin to lay the foundations for a stable state and economy.
Embora a Intervenção Francesa tenha causado consideráveis tumulto e desarranjo em todos os níveis da sociedade, da economia e da política mexicanas, a expulsão final dos franceses foi vista como justificativa para a Constituição liberal de 1857. Os conservadores mexicanos que haviam apoiado a Intervenção ficaram tão desacreditados que o governo Juárez teve condições para começar a lançar os alicerces de um estado e uma economia estáveis.
Meanwhile, Cinco de Mayo became one of Mexico’s more significant national holidays, designed to bring the country to celebrate their defeat of allegedly-superior French troops, and to this day, tens of millions in both Mexico and the United States mark the holiday, even if many only use it as an excuse to drink without fully understanding what the date signifies.
Quanto ao Cinco de Mayo, tornou-se um dos mais importantes feriados nacionais do México, estabelecido para levar o país a comemorar a derrota imposta a tropas francesas pretensamente superiores e, até hoje, dezenas de milhões de pessoas, tanto no México quanto nos Estados Unidos, não deixam passar em branco o feriado, embora muitas delas usem-no como pretexto para beber sem entender plenamente o que a data significa.
Poster - A poster commemorating the thirty-ninth anniversary of the Battle of Puebla. The Mexican army’s ability to defeat the French both reflected and contributed to a growing nationalism in Mexico in the latter half of the nineteenth century.
Cartaz - Cartaz comemorativo do trigésimo nono aniversário da Batalha de Puebla. O capacidade do exército mexicano de derrotar os franceses tanto refletiu quanto contribuiu para crescente nacionaismo no México na segunda metade do século dezenove.