Sunday, August 28, 2011

Libertarian Anarchism: Responses to Ten Objections / Copyright © 2004 Mises Institute

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Libertarian Anarchism: Responses to Ten Objections
Anarquismo Libertário: Respostas a Dez Objeções
by Roderick T. Long
por Roderick T. Long
Libertarian Anarchism: Transcription of a talk by Roderick Long
Anarquismo Libertário: Transcrição de uma palestra de Roderick Long
Copyright © 2004 Mises Institute
Copyright © 2004 Mises Institute
I want to talk about some of the main objections that have been given to libertarian anarchism and my attempts to answer them. But before I start giving objections and trying to answer them, there is no point in trying to answer objections to a view unless you have given some positive reason to hold the view in the first place. So, I just want to say briefly what I think the positive case is for it before going on to defend it against objections.
Desejo falar acerca de algumas das principais objeções que têm sido feitas ao anarquismo libertário e de minhas tentativas de responder a elas. Antes, porém, de começar a apresentar as objeções e tentar responder a elas, só faz sentido tentar responder a objeções a um ponto de vista se, antes de tudo, houver alguma razão concreta para a adoção de tal ponto de vista. Assim, desejo apenas dizer brevemente qual é, no meu entender, a argumentação concreta em favor dele, antes de defendê-lo contra objeções.
THE CASE FOR LIBERTARIAN ANARCHISM
A ARGUMENTAÇÃO EM FAVOR DO ANARQUISMO LIBERTÁRIO
Problems with Forced Monopoly
Problemas do Monopólio Forçado
Think about it this way. What’s wrong with a shoe monopoly?  Suppose that I and my gang are the only ones that are legally allowed to manufacture and sell shoes – my gang and anyone else that I authorize, but nobody else. What’s wrong with it?  Well, first of all, from a moral point of view, the question is: why us?  What’s so special about us? Now in this case, because I’ve chosen me, it is more plausible that I ought to have that kind of monopoly, so maybe I should pick a different example!  But still, you might wonder, where do I and my gang get off claiming this right to make and sell something that no one else has the right to make and sell, to provide a good or service no one else has the right to provide. At least as far as you know, I’m just another mortal, another human like unto yourselves (more or less). So, from a moral standpoint I have no more right to do it than anyone else.
Pensem do seguinte modo. O que há de errado com um monopólio de calçados? Suponhamos que eu e minha turma sejamos as únicas pessoas com permissão para, legalmente, fabricar e vender calçados – minha turma e qualquer outra pessoa que eu autorize, mas ninguém mais. O que haveria de errado? Bem, antes de tudo, de um ponto de vista moral, a pergunta é: por que nós? O que há de tão especial em nós? Pois bem, neste caso, por eu ter escolhido para exemplo eu próprio, é mais plausível que eu deva ter esse tipo de filosofia, e talvez pois eu devesse escolher um exemplo diferente! Ainda assim, porém, vocês poderão perguntar como eu e minha turma ousamos arrogar-nos o direito de fabricar e vender algo que ninguém mais tem o direito de fabricar e vender, de oferecer um bem ou serviço que ninguém mais tem o direito de oferecer. Pelo menos até onde vocês sabem, sou apenas mais um mortal, outro ser humano igual a vocês (mais ou menos). Assim, de um ponto de vista moral, eu não tenho mais direito de fazê-lo do que qualquer outra pessoa.
Then, of course, from a pragmatic, consequentialist standpoint – well, first of all, what is the likely result of my and my gang having a monopoly on shoes?  Well, first of all, there are incentive problems. If I’m the only person who has the right to make and sell shoes, you’re probably not going to get the shoes from me very cheaply. I can charge as much as I want, as long as I don’t charge so much that you just can’t afford them at all or you decide you’re happier just not having the shoes. But as long as you’re willing and able, I’ll charge the highest price that I can get out of you – because you’ve got no competition, nowhere else to go. You also probably shouldn’t   expect the shoes to be of particularly high quality, because, after all, as long as they’re barely serviceable, and you still prefer them to going barefoot – then you have to buy them from me.
Em seguida, obviamente, de um ponto de vista pragmático e consequencialista – bem, antes de tudo, qual será o resultado provável de eu e minha turma termos o monopólio dos calçados? Bem, primeiro de tudo, haverá problemas de incentivo. Se eu for a única pessoa com o direito de fabricar e vender calçados, vocês provavelmente não irão obter de mim calçados muito baratos. Poderei cobrar o quanto quiser, desde que não cobre tanto que vocês simplesmente não possam comprá-los em absoluto ou cheguem à conclusão de que são mais felizes sem possuir tais calçados. Na medida entretanto em que vocês os desejem e possam comprá-los, eu cobrarei o preço mais alto que conseguir fazer vocês pagarem  – porque vocês não podem contar com a competição, vocês não têm nenhum outro lugar para ir. Vocês também provavelmente não deverão esperar que os calçados sejam de qualidade particularmente alta porque, afinal de contas, desde que eles sejam minimamente úteis, e vocês prefiram usá-los do que andar descalços – terão de comprá-los de mim.
In addition to the likelihood that the shoes are going to be expensive and not very good, there’s also the fact that my ability to be the only person who makes and sells shoes gives me a certain leverage over you. Suppose that I   don’t like you. Suppose you’ve offended me in some way. Well, maybe you just don’t get shoes for a while. So, there’s also abuse-of-power issues.
Além da probabilidade de os calçados virem a ser caros e não muito bons, o fato de eu ser a única pessoa que os fabrica e vende dá-me ademais certo poder sobre vocês. Suponham que eu não goste de vocês. Suponham que vocês me tenham ofendido de algum modo. Bem, talvez vocês, por algum tempo, simplesmente não possam conseguir calçados. Assim, há também questões relacionadas com abuso de poder.
But, it’s just not the incentive problem, because, after all, suppose that I’m a perfect saint and I will make the best shoes I possibly can for you, and I’ll charge the lowest price I possibly can charge, and I won’t abuse my power at all. Suppose I’m utterly trustworthy. I’m a prince among men (not in Machiavelli’s sense). There is still a problem, which is: how do I know exactly that I’m doing the best job I can with these shoes?  After all, there’s no competition. I guess I could poll people to try to find out what   kind of shoes they seem to want. But there are lots of different ways I could make shoes. Some of them are more expensive ways of making them, and some are less expensive. How do I know, given that there’s no market, and there’s   really not much I can do in the way of profit and loss accounting?  I just have to make guesses. So even if I’m doing my best, the quantity I make, the quality I make may not be best suited to satisfy people’s preferences, and I have a hard time finding these things out.
Contudo, não há apenas o problema de incentivo porque, afinal, suponham que eu seja um santo perfeito e faça os melhores calçados  que consiga fazer para vocês, e cobre o menor preço que consiga cobrar, e não abuse em absoluto de meu poder. Suponham que eu seja completamente digno de confiança. Sou um príncipe entre os homens (não no sentido de Maquiavel). Ainda assim haverá um problema, que é: como poderei saber com precisão se estou fazendo o melhor trabalho de que sou capaz no tocante àqueles calçados? Afinal, não há competição. Imagino que possa sondar as pessoas para tentar descobrir que tipo de calçados elas parecem querer. Há, porém, muitas maneiras diferentes de fazer calçados. Alguns modos de fabricá-los são mais dispendiosos, outros menos. Como saberei,  dado não existir mercado, e dado não haver em realidade muito que eu possa fazer em termos de contabilidade de lucros e perdas? Só posso fazer conjecturas. Assim, mesmo se eu estiver fazendo o melhor que possa, a quantidade que fabrico, a qualidade do que fabrico podem não ser as mais adequadas para atender às preferências das pessoas, e ser-me-á extremamente difícil descobrir essas coisas.
Government is a Forced Monopoly
O Governo é um Monopólio Forçado
So those are all reasons not to have a monopoly on the making and selling of shoes. Now, prima facie at least, it seems as though those are all good reasons for anyone not to have a monopoly in the provision of services of adjudicating disputes, and protecting rights, and all the things that are involved in what you might broadly call the enterprise of law. First of all there’s the moral question: why does one gang of people get the right to be the only ones in a given territory who can offer certain kinds of legal services or enforce certain kinds of things?  And then there are these economic questions: what are the incentives going to be?  Once again, it’s a monopoly. It seems likely that with a captive customer base they’re going to charge higher prices than they otherwise would and offer lower quality. There might even be the occasional abuse of power. And then, even if you manage to avoid all those problems, and you get all the saintly types into the government, there’s still the problem of how do they know that the particular way that they’re providing legal services, the particular mix of legal services they’re offering, the particular ways they do it are really the best ones?  They just try to figure out what will work. Since there’s no competition, they don’t have much way of knowing whether what they’re doing is the most successful thing they could be doing.
Assim, essas são todas razões que não tornam recomdendável ter-se um monopólio de fabricação e venda de calçados. Ora, pelo menos prima facie, parece que essas são todas boas razões para que ninguém tenha monopólio de proporcionar serviços de adjudicar disputas, e proteger direitos, e todas as coisas envolvidas naquilo que vocês poderiam chamar, de maneira ampla, de a empresa da lei. Primeiro de tudo há a pergunta moral: por que um grupo de pessoas tem o direito de ser o único em dado território com o poder de oferecer certos tipos de serviços legais ou de impor certos tipos de coisas? E em seguida há aquelas perguntas econômicas: quais serão os incentivos? Mais uma vez, é um monopólio. Parece provável que, com uma base de clientes cativos, praticará preços mais altos do que praticaria não fosse assim, e oferecerá qualidade inferior. Poderia até ocorrer ocasional abuso de poder. E então, mesmo caso se encontre uma forma de evitar todos esses problemas, e se todas as pessoas santas forem colocadas dentro do governo, ainda assim haverá o problema de como saberão elas se o modo específico pelo qual estejam praticando os serviços legais, a mescla específica de serviços legais que estejam oferecendo, os modos específicos de prestar esses serviços, serão realmente os melhores? Elas apenas tentarão conceber o que funcionará. Visto não haver competição, elas não terão muito como saber se o que estejam fazendo será a coisa mais bem-sucedida que poderiam estar fazendo.
So, the purpose of those considerations is to put the burden of proof on the opponent. So this is the point, then, when the opponent of competition in legal services has to raise some objections.
Portanto, o propósito dessas considerações é colocar o ônus da prova no opositor. Neste ponto, portanto, o opositor da existência de competição em serviços legais [isto é, jurídicos, N.do T.] será forçado a suscitar algumas objeções.
TEN OBJECTIONS TO LIBERTARIAN ANARCHISM
DEZ OBJEÇÕES AO ANARQUISMO LIBERTÁRIO
(1) Government is Not a Coercive Monopoly
(1) O Governo Não é um Monopólio Coercitivo
Now, one objection that’s sometimes raised isn’t so much an objection to anarchism as an objection to the moral argument for anarchism: well, look, it’s not really a coercive monopoly. It’s not as though people haven’t consented to this because there’s a certain sense in which people have consented to the existing system – by living within the borders of a particular territory, by accepting the benefits the government offers, and so forth, they have, in effect, consented. Just as if you walk into a restaurant and sit down and say, “I’ll have a steak,” you don’t have to explicitly mention that you are agreeing to pay for it; it’s just sort of understood. By sitting down in the restaurant and asking for the steak, you are agreeing to pay for it. Likewise, the argument goes, if you sit down in the territory of this given state, and you accept benefits of police protection or something, then you’ve implicitly agreed to abide by its requirements. Now, notice that even if this argument works, it doesn’t settle the pragmatic question of whether this is the best working system.
Pois bem, uma das objeções por vezes suscitadas não é tanto uma objeção ao anarquismo quanto uma objeção ao argumento moral do anarquismo: bem, veja, não se trata de um monopólio realmente coercitivo. As coisas não se passam como se as pessoas não houvessem consentido com isso, porque há um certo sentido no qual as pessoas consentiram com o sistema hoje existente – ao viverem dentro das fronteiras de um território específico, ao aceitarem os benefícios que o governo oferece, e assim por diante, elas, de fato, consentiram. É como se você entrasse num restaurante e se sentasse e dissesse “Quero um filé,” você não tem de mencionar explicitamente estar concordando em pagá-lo; é algo como que subentendido. Ao sentar-se no restaurante e pedir o filé, você estará concordando em pagá-lo. Do mesmo modo, continua a argumentação, se você se situar no território deste estado específico, e aceitar os benefícios de proteção da polícia ou o que seja,   você terá implicitamente concordado em pautar-se por suas exigências. Ora bem, notem que mesmo se esse argumento funcionar, ele não resolverá a questão pragmática de se esse é o melhor sistema em termos de funcionamento.
But I think there is something dubious about this argument. It’s certainly true that if I go onto someone else’s property, then it seems like there’s an expectation that as long as I’m on their property I have to do as they say. I have to follow their rules. If I don’t want to follow their rules, then I’ve got to leave. So, I invite you over to my house, and when you come in I say, “You have to wear the funny hat.” And you say, “What’s this?” And I say, “Well, that’s the way it works in my house. Everyone has to wear the funny hat. Those are my rules.” Well, you can’t say, “I won’t wear the hat but I’m staying anyway.” These are my rules – they may be dumb rules, but I can do it.
Creio, porém, haver algo questionável nesse argumento. Por certo é verdade que, se eu entrar na propriedade de alguém, parece haver   certa espécie de expectativa de que, enquanto eu estiver naquela propriedade, eu tenha de fazer as coisas como o proprietário estipular. Terei de obedecer às regras dele. Se eu não quiser obedecer a tais regras, terei de sair de lá. Assim, convido vocês a irem a minha casa e quando vocês entram eu digo: “Vocês têm de usar o chapéu engraçado.” E vocês perguntam: “O que é isso?” E eu digo: “Bem, é como as coisas funcionam em minha casa. Todo mundo tem de usar o chapéu engraçado. Essas são minhas regras.” Bem, vocês não podem retrucar “Não vou usar o chapéu mas vou continuar aqui de qualquer modo.” Aquelas são minhas regras – podem ser regras idiotas, mas eu tenho o poder de fazer isso.
Now suppose that you’re at home having dinner, and I’m your next-door-neighbor, and I come and knock on your door. You open the door, and I come in and I say, “You have to wear the funny hat.” And you say, “Why is this?” And I say, “Well, you moved in next door to me, didn’t you? By doing that, you sort of agreed.” And you say, “Well, wait a second! When did I agree to this?”
Agora suponha que você esteja em casa jantando e eu seja o vizinho ao lado, e eu venha e bata à porta. Você abre a porta, eu entro e digo “Você tem de usar o chapéu engraçado.” E você diz: “Por quê?” E eu digo, “Bem, você se mudou para a residência ao lado da minha, não é? Ao fazer isso, você como que concordou.” E você diz, “Bem, espere um segundo! Quando é que eu concordei com isso?”
I think that the person who makes this argument is already assuming that the government has some legitimate jurisdiction over this territory. And then they say, well, now, anyone who is in the territory is therefore agreeing to the prevailing rules. But they’re assuming the very thing they’re trying to prove – namely that this jurisdiction over the territory is legitimate. If it’s not, then the government is just one more group of people living in this broad general geographical territory. But I’ve got my property, and exactly what their arrangements are I don’t know, but here I am in my property and they don’t own it – at least they haven’t given me any argument that they do – and so, the fact that I am living in “this country” means I am living in a certain geographical region that they have certain pretensions over – but the question is whether those pretensions are legitimate. You can’t assume it as a means to proving it.
Acredito que a pessoa que tece essa argumentação está já assumindo que o governo tem alguma jurisdição legítima sobre esse território. E então diz: bem, vejam, qualquer indivíduo que esteja neste território está, por isso mesmo, concordando com as regras vigentes. Quem argumenta assim, contudo, está   tomando como premissa exatamente aquilo que está tentando provar – isto é, que esta jurisdição em relação ao território é legítima. Se não é, então o governo é apenas mais um grupo de indivíduos vivendo nesse amplo território geográfico geral. Entretanto, eu estou em minha propriedade, e qual é exatamente a deles eu não sei, mas estou aqui em minha propriedade e eles não são donos dela – pelo menos não me ofereceram nenhum argumento mostrando que são – e portanto o fato de eu estar vivendo “neste país” significa que estou vivendo em certa região geográfica em relação à qual eles alimentam certas pretensões – mas a questão é se essas pretensões são legítimas. Não se pode assumir isso como meio de provar isso.
Another thing is, one of the problems with these implicit social contract arguments is that it’s not clear what the contract is. In the case of ordering food in a restaurant, everyone pretty much knows what the contract is. So you could run an implicit consent argument there. But no one would suggest that you could buy a house the same way.
Outra coisa é, um dos problemas desses argumentos de contrato social implícito é não ficar claro de que contrato se trata. No caso de pedir comida num restaurante, todo mundo sabe bastante bem qual é o contrato. Em tal caso, pois, vocês poderiam utilizar o argumento do consentimento implícito. Ninguém sugeriria, porém, que vocês pudessem comprar uma casa do mesmo modo.
There are all these rules and things like that. When it’s something complicated no one says, “You just sort of agreed by nodding your head at some point,” or something. You have to find out what it is that’s actually in the contract; what are you agreeing to? It’s not clear if no one knows what exactly the details of the contract are. It’s not that persuasive.
Há todas aquelas regras e coisas da espécie. Quando se trate de algo complicado ninguém diz “Você simplesmente como que assentiu ao balançar a cabeça em determinado momento,” ou coisa da espécie. Você tem de examinar o que efetivamente está no contrato; com o que você está concordando? Nada está claro caso ninguém saiba exatamente quais sejam os detalhes do contrato. Esse argumento não é lá muito persuasivo.
Okay, well, most of the arguments I’m going to talk about are pragmatic, or a mixture of moral and pragmatic.
Certo, bem, a maioria dos argumentos acerca dos quais falarei são pragmáticos, ou uma mescla de morais e pragmáticos.
(2) Hobbes: Government is Necessary for Cooperation
(2) Hobbes: O Governo é Indispensável para Cooperação
Probably the most famous argument against anarchy is Hobbes. Hobbes’ argument is: well, look, human cooperation, social cooperation, requires a structure of law in the background. The reason we can trust each other to cooperate is because we know that there are legal forces that will punish us if we violate each other’s rights. I know that they’ll punish me if I violate your rights, but they’ll also punish you if you violate my rights. And so I can trust you because I don’t have to rely on your own personal character. I just have to rely on the fact that you’ll be intimidated by the law. So, social cooperation requires this legal framework backed up by force of the state.
Provavelmente a mais famosa argumentação contra a anarquia é a de Hobbes. A argumentação de Hobbes é: bem, vejam, a cooperação humana, a cooperação social, requer uma estrutura de lei no plano de fundo. O motivo pelo qual podemos confiar uns nos outros a fim de cooperarmos é sabermos haver forças legais que nos punirão se violarmos os direitos uns dos outros. Sei que eles me punirão se eu violar os seus direitos, mas eles também punirão você se você violar os meus direitos. E pois eu posso confiar em você, porque não preciso depender do seu caráter pessoal. Só tenho de confiar no fato de que você será intimidado pela lei. Portanto, a cooperação social requer esse arcabouço legal respaldado na força do estado.
Well, Hobbes is assuming several things at once here. First he’s assuming that there can’t be any social cooperation without law. Second, he’s assuming that there can’t be any law unless it’s enforced by physical force. And third, he’s assuming you can’t have law enforced by physical force unless it’s done by a monopoly state.
Bem, Hobbes está, no caso, assumindo diversas coisas. Primeiro está assumindo não haver qualquer cooperação social sem lei. Segundo, ele está assumindo só poder haver lei se esta for imposta pela força física. E, terceiro, está assumindo a lei só poder ser feita cumprir pela   força caso quem faça isso seja um estado monopolista.
But all those assumptions are false. It’s certainly true that cooperation can and does emerge, maybe not as efficiently as it would with law, but without law. There’s Robert Ellickson’s book Order Without Law where he talks about how neighbors manage to resolve disputes. He offers all these examples about what happens if one farmer’s cow wanders onto another farmer’s territory and they solve it through some mutual customary agreements and so forth, and there’s no legal framework for resolving it. Maybe that’s not enough for a complex economy, but it certainly shows that you can have some kind of cooperation without an actual legal framework.
Ocorre que todas essas assunções são falsas. Certamente é verdade que cooperação genuína pode surgir e surge sem a lei, embora talvez de maneira não tão eficiente quanto com a lei. Há o livro de Robert Ellickson Ordem Sem Lei onde ele fala acerca de como os vizinhos fazem para   resolver disputas. Ele oferece todos aqueles exemplos acerca do que acontece se a vaca de um fazendeiro perambula pelo território de outro fazendeiro e eles resolvem o problema por meio de alguns acordos consuetudinários mútuos e assim por diante, e não há arcabouço legal para tal resolução. Talvez isso não seja o bastante para uma economia complexa, mas certamente mostra existir algum tipo de cooperação sem um arcabouço legal concreto.
Second, you can have a legal framework that isn’t backed up by force. An example would be the Law Merchant in the late Middle Ages: a system of commercial law that was backed up by threats of boycott. Boycott isn’t an act of force. But still, you’ve got merchants making all these contracts, and if you don’t abide by the contract, then the court just publicizes to everyone: “this person didn’t abide by the contract; take that into account if you’re going to make another contract with them.”
Segundo, pode existir um arcabouço legal não respaldado na força. Um exemplo seria a Lex Mercatoria no final da Idade Média: um sistema de lei comercial respaldado em ameaças de boicote. O boicote não é um ato de força. Ainda assim, os mercadores faziam todos aqueles contratos, e se alguém não honrasse o contrato o tribunal simplesmente divulgaria para todo mundo: “esta pessoa não honrou o contrato; levem isso em conta se vocês forem firmar outro contrato com ela.”
And third, you can have formal legal systems that do use force that are not monopolistic. Since Hobbes doesn’t even consider that possibility, he doesn’t really give any argument against it. But you can certainly see examples in history. The history of medieval Iceland, for example, where there was no one center of enforcement. Although there was something that you might perhaps call a government, it had no executive arm at all. It had no police, no soldiers, no nothing. It had a sort of a competitive court system. But then enforcement was just up to whoever. And there were systems that evolved for taking care of that.
E terceiro, pode haver sistemas legais que usam a força sem ser monopolistas. Visto que Hobbes sequer considera essa possibilidade, ele em realidade não desenvolve nenhuma argumentação em contrário. Vocês, porém, certamente poderão ver exemplos na história. A história da Islândia medieval, por exemplo, onde não havia um centro impositor. Embora houvesse algo que talvez pudesse ser chamado de governo, era algo que absolutamente não tinha um braço executivo. Não tinha polícia, nem soldados, nada. Era uma espécie de sistema competitivo de tribunais. Mas então a aplicação de sanções ficava a cargo de quem quer que fosse. E houve sistemas que evolveram para cuidar disso.
(3) Locke: Three “Inconveniences” of Anarchy
(3) Locke: Três “Inconveniências” da Anarquia
Okay, well, more interesting arguments are from Locke. Locke argues that anarchy involves three things he calls “inconveniences.” And “inconvenience” has a somewhat more weighty sound in 17th century English than it does in modern English, but still his point in calling it “inconveniences,” which still is a bit weaker, was that Locke thought that social cooperation could exist somewhat under anarchy. He was more optimistic than Hobbes was. He thought, on the basis of moral sympathies on the one hand and self-interest on the other, cooperation could emerge.
Bem, argumentação mais interessante vem de Locke. Locke argumenta que a anarquia envolve três coisas que ele chama de “inconveniências”. E “inconveniência” é um termo que soa de certo modo mais pesado no inglês do século 17 do que no inglês moderno, mas ainda assim o motivo de ele referir-se a “inconveniências,” o que ainda assim é um pouco mais suave, era Locke achar que a cooperação social podia existir de algum modo na anarquia. Ele era mais otimista do que Hobbes. Ele achava que, com base em simpatias morais de um lado e interesse próprio do outro, a cooperação podia surgir.
He thought there were three problems. One problem, he said, was that there wouldn’t be a general body of law that was generally known, and agreed on, and understood. People could grasp certain basic principles of the law of nature. But their applications and precise detail were always going to be controversial. Even libertarians don’t agree. They can agree on general things, but we’re always arguing with each other about various points of fine detail. So, even in a society of peaceful, cooperative libertarians, there are going to be disagreements about details. And so, unless there’s some general body of law that everyone knows about so that they can know what they can count on being able to do and what not, it’s not going to work. So that was Locke’s first argument. There has to be a generally known universal body of law that applies to everyone that everyone knows about ahead of time.
Ele achava haver três problemas. Um problema, disse ele, era que não haveria um conjunto geral de leis conhecido, entendido e acordado de maneira generalizada. As pessoas poderiam apreender certos princípios básicos da lei natural. As respectivas aplicações e detalhes precisos, porém, permaneceriam controversos. Até os libertários não concordam uns com os outros. Podem concordar quanto a coisas gerais, mas estamos sempre argumentando uns contra os outros acerca de diversos pontos de detalhe fino. Portanto, mesmo numa sociedade de libertários pacíficos e cooperativos haverá desacordos acerca de detalhes. E pois, a menos que haja algum conjunto geral de leis que todo mundo conheça de tal modo que possa saber com o que contar, no tocante ao que pode fazer e o que não pode, a coisa não funcionará. Esse pois foi o primeiro argumento de Locke. Tem de haver um conjunto universal de leis, conhecido de todos, que se aplique a todo mundo e que todo mundo conheça de antemão.
Second, there is a power-of-enforcement problem. He thought that without a government   you don’t have sufficiently unified power to enforce. You just have individuals enforcing things on their own, and they’re just too weak, they’re not organized enough, they could be overrun by a gang of bandits or something.
Segundo, há um problema de poder de impor. Ele achava que, sem governo, inexistiria poder unificado suficiente para impor. Só haveria indivíduos impondo coisas por conta própria, e eles seriam simplesmente fracos demais, não suficientemente organizados, podendo ser desbancados por uma quadrilha de bandoleiros ou algo da espécie.
Third, Locke said the problem is that people can’t be trusted to be judges in their own case. If two people have a disagreement, and one of them says, “Well, I know what the law of nature is and I’m going to enforce it on you,” well, people tend to be biased, and they’re going to find most plausible the interpretation of the law of nature that favors their own case. So, he thought that you can’t trust people to be judges in their own case; therefore, they should be morally required to submit their disputes to an arbitrator. Maybe in cases of  emergency they can still defend themselves on-the-spot, but for other cases where it’s not a matter of immediate self-defense, they need to delegate this to an arbitrator, a third party – and that’s the state.
Terceiro, Locke disse que o problema é não se poder confiar nas pessoas para que sejam juízas de seus próprios processos. Se duas pessoas tiverem uma desavença e uma delas disser “Bem, sei qual é a lei natural e vou impô-la a você,” bem, as pessoas tenderão a ser tendenciosas, e acharão mais plausível a interpretação da lei natural que favoreça sua própria causa. Assim, ele achava que não se pode confiar em as pessoas serem juízas de sua própria causa; portanto, deveria exigir-se delas que submetessem suas disputas a um árbitro. Talvez em casos de emergência elas ainda pudessem defender-se imediatamente mas, em outros casos, quando não se tratasse de autodefesa imediata, elas teriam que delegar suas causas a um árbitro, um terceiro – e esse era o estado.
So Locke thinks that these are three problems you have under anarchy, and that you wouldn’t have them under government or at least under the right kind of government. But I think that it’s actually exactly the other way around. I think that anarchy can solve all three of those problems, and that the state, by its very nature, cannot possibly solve them.
Portanto Locke acha serem esses os três problemas que existem na anarquia, e eles não existiriam sob um governo, ou pelo menos sob o tipo certo de governo. Eu, porém, acredito que acontece exatamente o contrário. Acho que a anarquia pode resolver todos esses três problemas, e que o estado, por causa de sua própria natureza, não tem como resolvê-los.
So let’s first take the case of universality, or having a universally known body of law that people can know ahead of time and count on. Now, can that emerge in a non-state system? Well, in fact, it did emerge in the Law Merchant precisely because the states were not providing it. One of the things that helped to bring about the emergence of the Law Merchant is the individual states in Europe each had different sets of laws governing merchants. They were all   different. And a court in France wouldn’t uphold a contract made in England under the laws of England, and vice versa. And so, the merchants’ ability to engage in international trade was hampered by the fact that there wasn’t any uniform system of commercial law for all of Europe. So the merchants got together and said, “Well, let’s just make some of our own. The courts are coming up with these crazy rules, and they’re all different, and they won’t respect each other’s decisions, so we’ll just ignore them and we’ll set up our own system.” So this is a case in which uniformity and predictability were produced by the market and not by the state. And you can see why that’s not surprising. It’s in the interest of those who are providing a private system to make it uniform and predictable if that’s what the customers need.
Assim, tomemos primeiro a argumentação relativa à universalidade, ou o ter-se um conjunto universalmente conhecido de leis que as pessoas possam conhecer antecipadamente e com o qual possam contar. Ora bem, poderá essa universalidade surgir num sistema sem estado? Bem, na verdade, já surgiu na Lex Mercatoria, precisamente por os estados não a  estarem provendo. Uma das coisas que ajudaram a causar o surgimento da Lex Mercatoria foi o fato de os estados individuais da Europa terem, cada um, conjuntos diferentes de leis a respeito de mercadores. Esses conjuntos eram todos diferentes. E um tribunal na França não manteria um contrato feito na Inglaterra sob as leis da Inglaterra, e vice-versa. E pois a capacidade dos mercadores de praticar comércio internacional era tolhida pelo fato de não haver nenhum sistema uniforme de   lei comercial para toda a Europa. Assim, os mercadores se juntaram e disseram: “Bem, vamos simplesmente fazer alguma lei nós próprios. Os tribunais estão vindo com essas regras malucas, e uns não respeitam as decisões dos outros, portanto nós simplesmente os ignoraremos e estabeleceremos nosso próprio sistema.” Portanto esse é um caso no qual a uniformidade e a previsibilidade foram produzidas pelo mercado e não pelo estado. E vocês podem ver por que isso não é de admirar. É do interesse daqueles que oferecem um sistema privado torná-lo uniforme e previsível, se for isso aquilo de que os cliente precisam.
It’s for the same reason that you don’t find any triangular ATM cards. As far as I know, there’s no law saying that you can’t have a triangular ATM card, but if anyone tried to market them, they just wouldn’t be very popular because they   wouldn’t fit into the existing machines. When what people need is diversity, when what people need is different systems for different people, the market provides that. But there are some things where uniformity is better. Your ATM card is more valuable to you if everyone else is using the same kind as well or a kind compatible with it so that you can all use the machines wherever you go; and therefore, the merchants, if they want to make a profit, they’re going to provide uniformity. So the market has an incentive to provide uniformity in a way that government doesn’t necessarily.
É pelo mesmo motivo que não encontramos nenhum cartão de caixa automático (ATM) triangular. Tanto quanto eu saiba, não existe lei   dizendo não se possa ter um cartão ATM triangular, mas se alguém tentasse comercializá-lo, ele simplesmente não se tornaria muito popular, porque não se encaixaria nas máquinas existentes. Quando o de que as pessoas precisam é diversidade, quando o de que as pessoas precisam é diferentes sistemas para diferentes pessoas, o mercado proporciona isso. Há porém algumas coisas para as quais a uniformidade é melhor. Seu cartão ATM será mais útil para você se todo mundo mais estiver usando o mesmo tipo também ou algum tipo compatível com ele, de tal modo que todos vocês possam usar as máquinas onde forem; e portanto, os negociantes, se desejarem ter lucro, proporcionarão uniformidade. Então o mercado tem incentivo para oferecer uniformidade de uma forma tal que o governo não necessariamente tem.
On the question of having sufficient power for organizing for defense – well, there’s no reason you can’t have organization under anarchy. Anarchy doesn’t mean that each person makes their own shoes. The alternative to government   providing all the shoes is not that each person makes their own shoes. So, likewise, the alternative to government providing all the legal services is not that each person has to be their own independent policeman. There’s no reason that they can’t organize in various ways. In fact, if you’re worried about not having sufficient force to resist an aggressor, well, a monopoly government is a much more dangerous aggressor than just some gang of bandits or other because it’s unified all this power in just one point in the whole society.
Quanto à questão de haver poder suficiente para organizar a defesa – bem, não há motivo para não haver organização numa anarquia. Anarquia não significa cada pessoa fabricar seus próprios calçados. A alternativa a o governo fabricar todos os calçados não é cada pessoa fabricar seus próprios calçados. Assim, analogamente, a alternativa a o governo fornecer todos os serviços legais não é cada pessoa ter de ser sua própria policial independente. Não há motivo para as pessoas não poderem organizar-se de diversas maneiras. Na verdade, se vocês estiverem preocupados com não terem força suficiente para resistir a um agressor, bem, um governo monopolista é agressor muito mais perigoso do que apenas alguma quadrilha de bandoleiros ou outra, porque unificou todo o seu poder em um ponto apenas de toda a sociedade.
But I think, most interestingly, the argument about being a judge in your own case really boomerangs against Locke’s argument here. Because first of all, it’s not a good argument for a monopoly because it’s a fallacy to argue from everyone should submit their disputes to a third party to there should be a third party that everyone submits their disputes to. That’s like arguing from everyone likes at least one TV show to there’s at least one TV show that everyone likes. It just doesn’t follow. You can have everyone submitting their disputes to third parties without there being some one third party that every one submits their disputes to. Suppose you’ve got three people on an island. A and B can submit their disputes to C, and A and C can submit their disputes to B, and B and C can submit their disputes to A. So you don’t need a monopoly in order to embody this principle that people should submit their disputes to a third party.
Acredito, porém, que, de maneira extremamente interessante, a argumentação acerca de ser juiz de sua própria causa tem, aqui, efeito de bumerangue contra a argumentação de Locke. Porque, antes de tudo, essa argumentação não é boa para um monopólio, porque é uma falácia argumentar partindo da premissa de que todo mundo deveria submeter suas disputas a um terceiro e chegar à conclusão de que deveria haver um terceito a quem todo mundo submetesse suas disputas. Isso é como argumentar partindo da premissa de que todo mundo gosta de pelo menos um programa de TV e chegar à conclusão de que há pelo menos um programa de TV do qual todo mundo gosta. Uma coisa simplesmente não decorre da outra. É possível todo mundo submeter suas disputas a terceiros sem haver apenas um terceiro a quem todo mundo submeta suas disputas. Suponhamos que haja três pessoas numa ilha. A e B podem submeter suas disputas a C, e A e C podem submeter suas disputas a B, e B e C podem submeter suas disputas a A. Portanto não há necessidade de um monopólio para encarnar esse princípio de que as pessoas deveriam submeter suas disputas a um terceiro.
But moreover, not only do you not need a government, but a government is precisely what doesn’t satisfy that principle. Because if you have a dispute with the government, the government doesn’t submit that dispute to a third party. If you have a dispute with the government, it’ll be settled in a government court (if you’re lucky – if  you’re unlucky, if you live under one of the more rough-and-ready governments, you won’t ever even get as far as a court). Now, of course, it’s better if the government is itself divided, checks-and-balances and so forth. That’s a little bit better, that’s closer to there being third parties, but still they are all part of the same system; the judges are paid by tax money and so forth. So, it’s not as  though you can’t have better and worse approximations to this principle among different kinds of governments. Still, as long as it’s a monopoly system, by its nature, it’s in a certain sense lawless. It never ultimately submits its disputes to a third party.
Ademais, porém, não apenas não é indispensável um governo como, ademais, um governo é precisamente o que não satisfaz esse princípio. Porque se vocês tiverem uma disputa com o governo, o governo não submeterá essa disputa a um terceiro. Se vocês tiverem uma disputa com o governo, ela será resolvida num tribunal do governo (se vocês tiverem sorte – se não tiverem, se vocês viverem sob um dos governos do tipo mais curto e grosso, vocês sequer terão julgamento em tribunal). Agora, naturalmente, é melhor se o governo for ele próprio dividido, com os poderes cada um controlando os demais e assim por diante. Isso é um pouquinho melhor, está mais próximo da existência de terceiros, mas estes ainda assim são parte do mesmo sistema; os juízes são pagos por dinheiro do contribuinte e assim por diante. Portanto, existem aproximações melhores e piores em relação a esse princípio, em diferentes tipos de governo. Ainda assim, na medida em que se trata de um sistema de monopólio, por sua própria natureza trata-se de algo, em certo sentido, sem lei. Ele nunca, em última análise, submeterá suas disputas a um terceiro.
(4) Ayn Rand: Private Protection Agencies Will Battle
(4) Ayn Rand: Os Órgãos de Proteção Privada Combaterão Uns Contra os Outros
Probably the most popular argument against libertarian anarchy is: well, what happens if (and this is Ayn Rand’s famous argument) I think you’ve violated my rights and you think you haven’t, so I call up my protection agency, and you call up your protection agency – why won’t they just do battle? What guarantees that   they won’t do battle? To which, of course, the answer is: well, nothing guarantees they won’t do battle. Human beings have free will. They can do all kinds of crazy things. They might go to battle. Likewise, George Bush might decide to push the nuclear button tomorrow. They might do all sorts of things.
Provavelmente o argumento mais popular contra a anarquia libertária é: bem, o que aconteceria se (e esse é o famoso argumento de Ayn Rand) eu achar que você violou meus direitos e você achar que não, e assim eu telefono para meu órgão de proteção, e você telefona para o seu – por que eles simplesmente não se engalfinhariam? O que garantiria que eles não se atracariam? Para o que, obviamente, a resposta é: bem, nada garante que eles não se atraquem. Os seres humanos têm livre arbítrio. Eles podem fazer toda sorte de coisas malucas. Podem entrar em confronto. Do mesmo modo, George Bush poderia resolver apertar o botão nuclear amanhã. Podem fazer toda sorte de coisas.
The question is: what’s likely? Which is likelier to settle its disputes through violence: a government or a private protection agency? Well, the difference is that private protection agencies have to bear the costs of their own decisions to go to war. Going to war is expensive. If you have a choice between two protection agencies, and one solves its disputes through violence most of the time, and the other one solves its disputes through arbitration   most of the time – now, you might think, “I want the one that solves its disputes through violence – that’s sounds really cool!” But then you look at your monthly premiums. And you think, well, how committed are you to this Viking mentality? Now, you might be so committed to the Viking mentality that you’re willing to pay for it; but still, it is more expensive. A lot of customers are going to say, “I want to go to one that doesn’t charge all this extra amount for the violence.” Whereas, governments – first of all, they’ve got captive customers, they can’t go anywhere else – but since they’re taxing the customers anyway, and so the customers don’t have the option to switch to a different agency. And so, governments can externalize the costs of their going to war much more effectively than private agencies can.
A questão é: com que probabilidade? Quem exibe maior probabilidade de resolver suas disputas pela violência: um governo ou um órgão privado de proteção? Bem, a diferença é que os órgãos privados de proteção têm de arcar com os custos de suas próprias decisões de entrar em confronto. Entrar em confronto é caro. Havendo escolha entre dois órgãos de proteção, um dos quais resolve suas disputas por meio da violência a maior parte do tempo, e outro que resolve suas disputas por meio de arbitragem a maior parte do tempo – bem, você poderia pensar, “Prefiro o que resolve suas disputas por meio da violência – parece um ótimo caminho!” Mas então você examina os prêmios mensais. E pensa: o quanto você está comprometido com essa mentalidade de Viking? Pois bem, você poderá ser adepto dessa mentalidade de Viking o suficiente para dispor-se a pagar o preço; ainda assim, será mais caro. Muitos clientes dirão: “Prefiro um órgão que não cobre todo esse montante adicional por conta da violência.” Em contraste, os governos – primeiro de tudo, eles têm clientes cativos, que não têm outra alternativa – tributam os clientes de qualquer maneira, e portanto os clientes não têm a opção de mudar para um órgão diferente. E, assim, os governos podem externalizar os custos de ir à guerra muito mais eficazmente do que os órgãos privados.
(5) Robert Bidinotto: No Final Arbiter of Disputes
(5) Robert Bidinotto: Não Existe Árbitro Final das Disputas
One common objection – this is one you find, for example, in Robert Bidinotto, who’s a Randian who’s written a number of articles against anarchy (he and I have had sort of a running debate online about this) – his principal   objection to anarchy is that under anarchy, there’s no final arbiter in disputes. Under government, some final arbiter at some point comes along and resolves the dispute one way or the other. Well, under anarchy, since there’s   no one agency that has the right to settle things once and for all, there’s no final arbiter, and so disputes, in some sense, never end, they never get resolved, they always remain open-ended.
Uma objeção comum – é a que encontramos, por exemplo, em Robert Bidinotto, randiano que escreveu diversos artigos contra a anarquia (ele e eu temos tido uma espécie de debate online em andamento a respeito do assunto) – a principal objeção dele à anarquia é a de que, na anarquia, não há árbitro final nas disputas. Sob o governo aparece, em algum momento, algum árbritro final o qual resolve a disputa de um modo ou de outro. Bem, na anarquia, como não há órgão único com o direito de resolver as coisas de uma vez por todas, não há árbitro final e pois as disputas, em certo sentido, nunca acabam, nunca são resolvidas, sempre permanecem em aberto.
So what’s the answer to that? Well, I think that there’s an ambiguity to the concept here of a final arbiter. By “final arbiter,” you could mean the final arbiter in what I call the Platonic sense. That is to say, someone or something or some institution that somehow absolutely guarantees that the dispute is resolved forever; that absolutely guarantees the resolution. Or, instead, by “final arbiter” you could simply mean some person or process or institution or something-or-other that more or less reliably guarantees most of the time that these problems get resolved.
Qual é pois a resposta a isso? Bem, acho que o conceito de árbitro final, aqui, peca por certa ambiguidade. “Árbitro final” pode significar o árbitro final naquilo que chamo de sentido platônico. Isto é, alguém ou algo ou alguma instituição que de algum modo garanta de maneira absoluta que a disputa seja resolvida de uma vez por todas; que garanta, de maneira absoluta, a resolução. Ou, em vez disso, pode-se entender por “árbitro final” simplesmente alguma pessoa ou processo ou instituição ou algo da espécie que, de maneira mais ou menos fidedigna, garanta, na maior parte das vezes, que esses problemas sejam resolvidos.
Now, it is true, that in the Platonic sense of an absolute guarantee of a final arbiter – in that sense, anarchy does not provide one. But neither does any other system. Take a minarchist constitutional republic of the sort that Bidinotto favors. Is there a final arbiter under that system, in the sense of something that absolutely guarantees ending the process of dispute forever? Well, I sue you, or I’ve been sued, or I am accused of something, whatever –   I’m in some kind of court case. I lose. I appeal it. I appeal it to the Supreme Court. They go against me. I lobby the Congress to change the laws to favor me. They don’t do it. So then I try to get a movement for a Constitutional Amendment going. That fails, so I try and get people together to vote in new people in Congress who will vote for it. In some sense it can go on forever. The dispute isn’t over.
Agora: é verdade que, no sentido platônico de garantia absoluta de um árbitro final – nesse sentido, a anarquia não oferece nenhum. Nem, porém, qualquer outro sistema. Tomemos uma república constitucional minarquista do tipo da que Bidinotto é a favor. Haverá um árbitro final naquele sistema, no sentido de algo que garanta de modo absoluto acabar com o processo de disputa para sempre? Ora bem, eu processo você, ou fui processado, ou sou acusado de algo, o que seja – estou envolvido em algum tipo de processo de tribunal. Perco. Apelo. Apelo para o Supremo Tribunal. Eles ficam contra mim. Faço lobby no Congresso para mudarem as leis a fim de elas me favorecerem. Eles não mudam. Então eu tento criar um movimento por uma Emenda à Constituição. Não dá certo, então tento aglutinar pessoas para elegerem novos membros do Congresso que votem pela emenda. Em certo sentido posso continuar para sempre. A disputa não está resolvida.
But, as a matter of fact, most of the time most legal disputes eventually end. Someone finds it too costly to continue fighting. Likewise, under anarchy – of course there’s no guarantee that the conflict won’t go on forever. There are very few guarantees of that iron-clad sort. But that’s no reason not to expect it to work.
Na prática, porém, na maior parte das vezes a maioria das disputas legais por fim acabam. Alguém acaba considerando ser caro demais continuar lutando. Do mesmo modo, na anarquia – naturalmente, não há garantia de que o conflito não prossiga para sempre. Existem muito poucas garantias desse tipo inquestionável. Mas isso não é motivo para esperar que as coisas não funcionem.
(6) Property Law Cannot Emerge from the Market
(6) A Lei da Propriedade Não Tem Como Surgir do Mercado
Another popular argument, also used often by the Randians, is that market exchanges presuppose a background of property law. You and I can’t be making exchanges of goods for services, or money for services, or whatever, unless there’s already a stable background of property law that ensures us the property titles that we have. And because the market, in order to function, presupposes existing background property law, therefore, that property law cannot itself be the product of the market. The property law must emerge – they must really think it must emerge out of an infallible robot or something – but I don’t know exactly what it emerges from, but somehow it can’t emerge from the market.
Outro argumento popular, também usado pelos randianos, é o de que as trocas no mercado pressupõem um plano de fundo de lei da propriedade. Você e eu só podemos fazer trocas de bens por serviços, ou de dinheiro por serviços, ou o que seja, se já existir um plano de fundo estável de lei de propriedade que nos garanta os títulos de propriedade que temos. E como o mercado, para funcionar, pressupõe um plano de fundo de lei de propriedade já existente, essa lei da propriedade não pode, ela própria, ser produto do mercado. A lei de propriedade tem de surgir – eles só podem acreditar que ela surge a partir de algum robô infalível ou coisa da espécie – não sei exatamente de onde ela surge, mas de algum modo ela não pode surgir do mercado.
But their thinking this is sort of like: first, there’s this property law, and it’s all put in place, and no market transactions are happening – everyone is just waiting for the whole legal structure to be put in place. And then it’s in place – and now we can finally start trading back and forth. It certainly is true that you can’t have functioning markets without a functioning legal system; that’s true. But it’s not as though first the legal system is in place, and then on the last day they finally finish putting the legal system together – then people begin their trading. These things arise together. Legal institutions and economic trade arise together in one and the same place, at one and the same time. The legal system is not something independent of the activity it constrains. After all, a legal system again is not a robot or a god or something separate from us. The existence of a legal system consists in people obeying it. If everyone ignored the legal system, it would have no power at all. So it’s only because people generally go along with it that it survives. The legal system, too, depends on voluntary support.
Porém o modo de pensar deles é mais ou menos o seguinte: primeiro, há a lei da propriedade, e tudo está estabelecido, e não há transações de mercado acontecendo – todo mundo fica esperando que a estrutura legal total fique pronta. E então ela está pronta – e agora podemos finalmente começar a fazer negócios uns com os outros. É certamente verdade não poder haver mercados em funcionamento sem um sistema legal funcionando; é verdade. Mas as coisas não se passam como se primeiro houvesse um sistema legal pronto e em seguida, no último dia em que o sistema acaba de ser composto e fica pronto – aí então as pessoas começam a negociar. Essas coisas surgem juntas. As instituições legais e as transações econômicas surgem juntas em um e mesmo lugar, ao mesmo tempo. O sistema legal não é algo independente da atividade que ele constrange. Afinal de contas, um sistema legal, repetindo, não é um robô ou um deus ou algo da espécie ou algo separado de nós. A existência de um sistema legal consiste em pessoas obedecendo-o. Se todo mundo ignorasse o sistema legal, ele não teria poder algum. Portanto, é só pelo fato de as pessoas generalizadamente aceitarem-no que ele sobrevive. O sistema legal, também ele, depende de apoio voluntário.
I think that a lot of people – one reason that they’re scared of anarchy is they think that under government it’s as though there’s some kind of guarantee that’s taken away under anarchy. That somehow there’s this firm background we can always fall back on that under anarchy is just gone. But the firm background is just the product of people interacting with the incentives that they have. Likewise, when anarchists say people under anarchy would probably have the incentive to do this or that, and people say, “Well, that’s not good enough! I don’t just want it to be likely that they’ll have the incentive to do this. I want the government to absolutely guarantee that they’ll do it!”
Acho que muitas pessoas – um dos motivos de elas terem medo da anarquia é acharem que sob o governo como que existiria algum tipo de garantia que deixaria de existir caso houvesse anarquia. Que de algum modo existe um firme plano de fundo ao qual podemos recorrer, o qual, na anarquia, simplesmente se esvairia. O firme plano de fundo, porém, é apenas o produto de pessoas interagindo com os incentivos que têm. Do mesmo modo, quando os anarquistas dizem que as pessoas, na anarquia, provavelmente teriam incentivo para fazer isto ou aquilo, e as pessoas dizem “Bem, não é bom o bastante! Eu simplesmente não quero que seja provável elas terem incentivo para fazer isso. Quero que o governo garanta de maneira absoluta que elas farão isso!”
But the government is just people. And depending on what the constitutional structure of that government is, it’s likely that they’ll do this or that. You can’t design a constitution that will guarantee that the people in the government will behave in any particular way. You can structure it in such a way so that they’re more likely to do this or less likely to do this. And you can see anarchy as just an extension of checks-and-balances to a broader level.
O governo, porém, é apenas pessoas. E dependendo da estrutura constitucional do governo, é provável que elas façam isso ou aquilo. Não há como elaborar uma constituição que garanta que as pessoas no governo virão a se comportar de qualquer modo específico. É possível estruturá-la de modo a ser mais provável as pessoas fazerem isto ou menos provável elas fazerem isto. E vocês podem considerar a anarquia como apenas uma extensão do controle dos poderes uns pelos outros em nível mais amplo.
For example, people say, “What guarantees that the different agencies will resolve things in any particular way?” Well, the U.S. Constitution says   nothing about what happens if different branches of the government disagree about how to resolve things. It doesn’t say what happens if the Supreme Court thinks something is unconstitutional but Congress thinks it doesn’t, and wants to go ahead and do it anyway. Famously, it doesn’t say what happens if there’s a dispute between the states and the federal government. The current system where once the Supreme Court declares something unconstitutional, then the Congress and the President don’t try to do it anymore (or at least not quite so much) – that didn’t always exist. Remember when the Court declared what Andrew Jackson was doing unconstitutional, when he was President, he just said, “Well, they’ve made their decision, let them enforce it.” The Constitution doesn’t say whether the way Jackson did it was the right way. The way we do it now is the way that’s emerged through custom. Maybe you’re for it, maybe you’re against it – whatever it is, it was never codified in law.
Por exemplo as pessoas dizem: “Que garantia há de os diferentes órgãos virem a resolver as coisas de qualquer maneira específica?” Bem, a Constituição dos Estados Unidos nada diz acerca do que acontecerá se diferentes poderes do governo discordarem acerca de como resolver as coisas. Ela não diz o que acontecerá se o Supremo Tribunal achar que algo é inconstitucional mas o Congresso achar que não é e desejar ir em frente e fazê-lo de qualquer forma. Notoriamente ela não diz o que acontecerá se houver disputa entre os estados e o governo federal. O sistema atual onde uma vez que o Supremo Tribunal declare algo institucional o Congresso e o Presidente não tentem mais fazê-lo (ou pelo menos não tanto) – isso nem sempre existiu. Lembrem-se de que, quando o Tribunal declarou ser inconstitucional o que Andrew Jackson estava fazendo, quando ele era Presidente, ele apenas disse: “Bem, eles tomaram a decisão deles, eles portanto que a imponham.” A Constituição não diz se o modo pelo qual Jackson fez as coisas era o modo correto. O modo pelo qual fazemo-lo hoje surgiu do costume. Talvez vocês sejam a favor, talvez contra – o que for, nunca foi codificado em lei.
(7) Organized Crime Will Take Over
(7) O Crime Organizado Tomará Conta
One objection is that under anarchy organized crime will take over. Well, it might. But is it likely? Organized crime gets its power because it specializes in things that are illegal – things like drugs and prostitution and so forth. During the years when alcohol was prohibited, organized crime specialized in the alcohol trade. Nowadays, they’re not so big in the alcohol trade. So the power of organized crime to a large extent depends on the power of government. It’s sort of a parasite on government’s activities. Governments by banning things create black markets. Black markets are dangerous things to be in because you have to worry both about the government and about other dodgy people who are going into the black market field. Organized crime specializes in that. So, organized crime I think would be weaker, not stronger, in a libertarian system.
Uma objeção é a de que, na anarquia, o crime organizado tomará conta. Bem, poderia acontecer. Mas será provável? O crime organizado ganha poder por especializar-se em fazer coisas ilegais – coisas como drogas e prostituição e assim por diante. No decorrer dos anos quando o álcool era proibido o crime organizado especializou-se no comércio de álcool. Hoje, não é tão grande no comércio de álcool. Então o poder do crime organizado, em grande parte, depende do poder do governo. Ele é uma espécie de parasita das atividades do governo. Os governos, ao proibirem coisas, criam mercados paralelos. Os mercados paralelos são atividades perigosas de desempenhar porque você terá de preocupar-se tanto com o governo quanto com outras pessoas astuciosas que entram na área de mercado paralelo. O crime organizado especializa-se nisso. Acho, assim, que o crime organizado seria mais fraco, não mais forte, num sistema libertário.
(8) The Rich Will Rule
(8) Os Ricos Governarão
Another worry is that the rich would rule. After all, won’t justice just go to the highest bidder in that case, if you turn legal services into an economic good? That’s a common objection. Interestingly, it’s a particularly common objection among Randians, who suddenly become very concerned about the poor impoverished masses. But under which system are the rich more powerful? Under the current system or under anarchy? Certainly, you’ve always got some sort of advantage if you’re rich. It’s good to be rich. You’re always in a better position to bribe people if you’re rich than if you’re not; that’s true. But, under the current system, the power of the rich is magnified. Suppose that I’m an evil rich person, and I want to get the government to do something-or-other that costs a million dollars. Do I have to bribe some bureaucrat a million dollars to get it done? No, because I’m not asking him to do it with his own money. Obviously, if I were asking him to do it with his own money, I couldn’t get him to spend a million dollars by bribing him any less than a million. It would have to be at least a million dollars and one cent. But people who control tax money that they don’t themselves personally own, and therefore can’t do whatever they want with, the bureaucrat can’t just pocket the million and go home (although it can get surprisingly close to that). All I have to do is bribe him a few thousand, and he can direct this million dollars in tax money to my favorite project or whatever, and thus the power of my bribe money is multiplied.
Outra preocupação é a de que os ricos passem a governar. Afinal, a justiça simplesmente não irá para o lado de quem pagar mais nesse caso, se vocês tornarem os serviços legais num bem econômico? Essa é uma objeção comum. Interessante, é uma objeção particularmente comum entre os randianos, que subitamente se tornam muito preocupados com as pobres massas destituídas. Em que sistema, porém, os ricos são mais poderosos? No sistema atual ou na anarquia? Certamente, você levará sempre algum tipo de vantagem se for rico. É bom ser rico. Você estará sempre numa posição melhor para subornar pessoas se for rico do que se não for. Todavia, no sistema atual, o poder dos ricos é potencializado. Suponhamos que eu seja um rico malvado e deseje fazer o governo fazer algum tipo de coisa que custe um milhão de dólares. Terei eu de subornar algum burocrata com um milhão de dólares para conseguir isso? Não, porque não estou pedindo para ele fazer isso com o próprio dinheiro dele. Obviamente, se eu pedisse a ele para fazê-lo com o próprio dinheiro dele, não conseguiria que ele gastasse um milhão de dólares subornando-o por menos de um milhão. Teria de ser pelo menos um milhão de dólares e um centavo. Contudo, as pessoas que controlam o dinheiro de tributos não possuem esse dinheiro pessoalmente, e não podem fazer com ele o que quiserem, isto é, o burocrata não pode simplesmente embolsar o milhão e ir para casa (embora a coisa possa chegar surpreendentemente perto disso). Tudo o que tenho a fazer é suborná-lo pagando-lhe alguns milhares de dólares, e ele poderá  destinar aquele milhão de dólares para meu projeto favorito ou o que seja, e portanto o poder de minha verba de suborno é multiplicado.
Whereas, if you were the head of some private protection agency and I’m trying to get you to do something that costs a million dollars, I’d have to bribe you more than a million. So, the power of the rich is actually less under this system. And, of course, any court that got the reputation of discriminating in favor of millionaires against poor people would also presumably have the reputation of discriminating for billionaires against millionaires. So, the millionaires would not want to deal with it all of the time. They’d only want to deal with it when they’re dealing with people poorer, not people richer. The reputation effects – I don’t think this would be too popular an outfit.
Em contraste, se você fosse o chefe de algum órgão privado de proteção e eu tentasse fazer com que você fizesse algo que custasse um milhão de dólares, eu teria de subornar você pagando mais de um milhão. Portanto, o poder dos ricos num sistema assim é, em realidade, menor. E, naturalmente, qualquer tribunal que ganhasse a reputação de cometer discriminação em favor dos milionários contra os pobres também teria presumivelmente a reputação de cometer discriminação em favor dos bilionários em detrimento dos milionários. Assim, os milionários não desejariam recorrer a ele sempre. Só recorreriam a ele quando lidando com pessoas mais pobres, não com pessoas mais ricas. As repercussões da reputação – não creio que a pecha se popularizasse muito.
Worries about poor victims who can’t afford legal services, or victims who die without heirs (again, the Randians are very worried about victims dying without heirs) – in the case of poor victims, you can do what they did in Medieval Iceland. You’re too poor to purchase legal services, but still, if someone has harmed you, you have a claim to compensation from that person. You can sell that claim, part of the claim or all of the claim, to someone else. Actually, it’s kind of like hiring a lawyer on a contingency fee basis. You can sell to someone who is in a position to enforce your claim. Or, if   you die without heirs, in a sense, one of the goods you left behind was your claim to compensation, and that can be homesteaded.
Preocupações acerca de vítimas pobres que não têm como pagar serviços legais, ou vítimas que morrem sem herdeiros (repetindo, os randianos estão muito preoupados com vítimas que morrem sem herdeiros) – no caso de vítimas pobres, vocês podem fazer o que se fazia na Islândia Medieval. Você é pobre demais para pagar serviços legais mas, ainda assim, se alguém prejudicou você, você tem o direito de requerer indenização daquela pessoa. Você poderá vender essa indenização, ou parte da indenização, ou toda a indenização, para outra pessoa. Na verdade, é algo do tipo de contratar advogado em base de honorários só pagáveis se houver ganho de causa. Você poderá vender sua indenização para alguém que tenha condições de fortalecer suas reivindicações. Ou, se você morrer sem herdeiros, em certo sentido um dos bens que você deixa é sua reivindicação de indenização, e ela poderá ser objeto de apropriação.
(9) Robert Bidinotto: The Masses Will Demand Bad Laws
(9) Robert Bidinotto: As Massas Demandarão Más Leis
Another worry that Bidinotto has – and this is sort of the opposite of the worry that the rich will rule – is: well, look, isn’t Mises right, that the market is like a big democracy, where there is consumer sovereignty, and the masses get whatever they want? That’s great when it’s refrigerators and cars and so forth. But surely that’s not a good thing when it’s laws. Because,   after all, the masses are a bunch of ignorant, intolerant fools, and if they just get whatever laws they want, who knows what horrible things they will make.
Outra preocupação de Bidinotto – e é uma espécie de preocupação oposta à de que os ricos dominem – é: bem, vejam, não está Mises certo quando diz que o mercado é como uma grande democracia, onde há soberania do consumidor, e as massas obtêm o que desejam? Isso é ótimo quando o assunto é geladeiras, carros e assim por diante. Seguramente, porém, não é boa coisa quando se trata de leis. Pois, afinal de contas, as massas são uma turba de parvos ignorantes e intolerantes, e se elas obtiverem as leis que desejam, quem sabe que coisas horríveis farão.
Of course, the difference between economic democracy of the Mises sort and political democracy is: well, yeah, they get whatever they want, but they’re going to have to pay for it. Now, it’s perfectly true that if you have people who are fanatical enough about wanting to impose some wretched thing on other people, if you’ve got a large enough group of people who are fanatical enough about this, then anarchy might not lead to libertarian results.
Obviamente, a diferença entre a democracia econômica tipo Mises e a democracia política é: bem, sim, elas obterão o que desejem, mas terão de pagar o preço. Agora, é perfeitamente verdade que se houver pessoas fanáticas o bastante quanto a desejarem impor alguma coisa ignóbil a outras pessoas, se houver um grupo de pessoas grande o suficiente fanático a respeito, então a anarquia poderá não levar a resultados libertários.
If you live in California, you’ve got enough people who are absolutely fanatical about banning smoking, or maybe if you’re in Alabama, and it’s homosexuality instead of smoking they want to ban (neither one would ban the other, I think) – in that case, it might happen that they’re so fanatical about it that they would ban it. But remember that they are going to have to be paying for this. So when you get your monthly premium, you see: well, here’s your basic service – protecting you against aggression; oh, and then here’s also your extended service, and the extra fee for that – peering in your neighbors’ windows to make sure that they’re not – either the tobacco or the homosexuality or whatever it is you’re worried about. Now the really fanatical people will say, “Yes, I’m going to shell out the extra money for this.” (Of course, if they’re that fanatical, they’re probably going to be trouble under minarchy, too.) But if they’re not that fanatical, they’ll say, “Well, if all I have to do is go into a voting booth and vote for these laws restricting other people’s freedom, well, heck, I’d go in, it’s pretty easy to go in and vote for it.” But if they actually have to pay for it – “Gee, I don’t know. Maybe I can reconcile myself to this.”
Se você morar na Califórnia, haverá suficiente número de pessoas absolutamente fanático acerca de proibir o fumo, ou talvez se você viver no Alabama, e se for o homossexualismo em vez do fumo que eles desejarem proibir (nenhum dos dois proibiria o outro, penso eu) – nesse caso, poderia acontecer que eles fossem tão fanáticos a respeito que partissem para a proibição. Mas lembrem-se de que pagarão por isso. Assim, quando você for ver seu prêmio mensal, verá: bem, aqui está seu serviço básico – proteger você contra agressão; oh, e depois há também seu serviço ampliado, e a taxa extra por ele – espiar pelas janelas dos seus vizinhos para garantir que eles não estejam – seja o fumo, seja o homossexualismo ou o que quer com o que você esteja preocupado. Agora: as pessoas realmente fanáticas dirão “Sim, vou desembolsar mais dinheiro para pagar isso.” (Naturalmente, se elas forem fanáticas a esse ponto, representarão problema na minarquia, também.) Se porém não forem tão fanáticas dirão: “Bem, se tudo o que eu precisar fazer for ir a uma cabine de votação e votar em favor dessas leis que restringem a liberdade das outras pessoas, ora essa, eu bem que irei, é muito fácil ir e votar.” Caso, entanto, elas tiverem que efetivamente pagar o preço – “Ah, não sei. Talvez eu possa me conformar, afinal.”
(10) Robert Nozick and Tyler Cowen: Private Protection Agencies Will Become a de facto Government
(10) Robert Nozick e Tyler Cowen: Órgãos Privados de Proteção Tornar-se-ão um Governo na prática
Okay, one last consideration I want to talk about. This is a question that originally was raised by Robert Nozick and has since been pushed farther by Tyler Cowen. Nozick said: Suppose you have anarchy. One of three things will happen. Either the agencies will fight – and he gives two different scenarios of what will happen if they fight. But I’ve already talked about what happens if they fight, so I’ll talk about the third option. What if they don’t fight? Then he says, if instead they agree to these mutual arbitration contracts and so forth, then basically this whole thing just turns into a government. And then Tyler Cowen has pushed this argument farther. He said what happens is that basically this forms into a cartel, and it’s going to be in the interest of this cartel to sort of turn itself into a government. And any new agency that comes along, they can just boycott it.
Muito bem, uma última consideração acerca da qual desejo falar. É uma questão suscitada originalmente por Robert Nozick e posteriormente desenvolvida por Tyler Cowen. Nozick disse: Suponhamos que haja anarquia. Uma dentre três coisas acontecerá. Ou os órgãos brigarão – e ele dá dois cenários diferentes do que acontecerá se eles brigarem. Eu porém já disse a respeito do que aconteceria se eles brigassem, e portanto falarei acerca da terceira opção. E se eles não brigarem? Então, diz ele, se eles, pelo contrário, concordarem com esses contratos de arbitragem mútua e assim por diante, então basicamente a coisa toda simplesmente se transformará num governo. E depois Tyler Cowen levou mais longe essa argumentação. Ele disse que o que acontece é basicamente isso vir a constituir-se num cartel e será de interesse desse cartel de certa forma transformar-se num governo. E qualquer novo órgão que surgir, ele simplesmente o boicotará.
Just as it’s in your interest if you come along with a new ATM card that it be compatible with everyone else’s machines, so if you come along with a brand new protection agency, it is in your interest that you get to be part of this system of contracts and arbitration and so forth that the existing ones have. Consumers aren’t going to come to you if they find out that you don’t have   any agreements as to what happens if you’re in a conflict with these other agencies. And so, this cartel will be able to freeze everyone out.
Do mesmo modo que é de seu interesse ao você usar um novo cartão ATM que ele seja compatível com as máquinas de todo mundo mais, assim se você usar um novo tipo de órgão de proteção será de seu interesse ele ser parte desse sistema de contratos e arbitragem e assim por diante que os órgãos já existentes têm. Os consumidores não virão a você se descobrirem que você não tem quaisquer acordos acerca do que acontecerá se você entrar em conflito com os outros órgãos. E portanto o tal cartel terá como inviabilizar todo mundo mais.
Well, could that happen? Sure. All kinds of things could happen. Half the country could commit suicide tomorrow. But, is it likely? Is this cartel likely to be able to abuse its power in this way? The problem is cartels are unstable for all the usual reasons. That doesn’t mean that it’s impossible that a cartel succeed. After all, people have free will. But it’s unlikely because the very incentives that lead you to form the cartel also lead you to cheat on it – because it’s always in the interest of anyone to make agreements outside the cartel once they are in it.
Bem, isso poderia acontecer? Sem dúvida. Todo tipo de coisa pode acontecer. Metade do país poderia cometer suicídio amanhã. É, contudo, provável? Seria provável que o cartel abusasse de seu poder desse modo? O problema é que os cartéis são instáveis por todos os motivos usuais. Isso não significa ser impossível para um cartel ter sucesso. Afinal, as pessoas têm livre arbítrio. É porém algo improvável, porque exatamente os mesmos incentivos que levam você a formar um cartel levam você a passá-lo para trás – porque é sempre do interesse de qualquer pessoa fazer acordos fora do cartel uma vez estando dentro dele.
Bryan Caplan makes a distinction between self-enforcing boycotts and non-selfenforcing boycotts. Self-enforcing boycotts are ones where the boycott is pretty stable because it’s a boycott against, for example, doing business with people who cheat their business partners. Now, you don’t have to have some iron resolve of moral commitment in order to avoid doing business with people who cheat their business partners. You have a perfectly self-interested reason not to do business with those people.
Bryan Caplan estabelece uma distinção entre boicotes que se reforçam a si próprios e boicotes que não se reforçam a si próprios. Os boicotes que se reforçam são aqueles nos quais o boicote é bastante estável por ser um boicote contra, por exemplo, fazer negócios com pessoas que enganam seus parceiros de negócios. Ora bem, você não tem de ter um compromisso moral dependente de determinação férrea para evitar fazer negócios com pessoas que enganam seus parceiros de negócios. Você tem um motivo de perfeito interesse próprio para não fazer negócio com tais pessoas.
But think instead of a commitment not to do business with someone because you don’t like their religion or something like that, or they’re a member of the wrong protection agency, one that your fellow protection agencies told you not to deal with – well, the boycott might work. Maybe enough people (and maybe everyone) in the cartel is so committed to upholding the cartel that they just won’t deal with the person. Is that possible? Yes. But, if we assume that they formed the cartel out of their own economic self-interest, then the economic self-interest is precisely what leads to the undermining because it’s in their interest to deal with the person, just as it’s always in your interest to engage in mutually beneficial trade.
Pense porém num compromisso de não fazer negócios com alguém porque você não gosta da religião da pessoa ou de algo da espécie, ou por essa pessoa ser membro do órgão de proteção errado, com o qual seus órgãos de proteção disseram a você para não se relacionar – bem, o boicote poderá funcionar. Talvez pessoas bastantes (e talvez todo mundo) no cartel estejam tão decididas a manter o cartel que simplesmente não se relacionarão com tal pessoa. Será isso possível? Sim. Se, porém, assumirmos que elas formaram o cartel com base no interesse econômico próprio delas, então o interesse próprio é precisamente o que leva ao solapamento, porque é do interesse delas lidar com a pessoa, do mesmo modo que é sempre do interesse de vocês envolverem-se em trocas mutuamente benéficas.
QUESTION PERIOD
PERÍODO DE PERGUNTAS
Anyway, those are some of the objections and some of my replies, and I’ll open it up.
De qualquer modo, essas são algumas das objeções e algumas de minhas respostas, e abro o tema.
Q1: My chief concern about anarchism is: why can’t you say that government is just another division of labor? Because it could be that some people are better or possess natural capabilities that are more suited to ruling over others. I’m not saying anarchy cannot work, but solely from empirical evidence, the fact that none of the industrialized regions in the world are in a state of anarchy, nor have they ever been for long in a state of anarchy says something about perhaps the stability or viability of complex human societies in the present state. And also, going back to what I said earlier, you can conceive of the relationship between the ruler and the ruled as just another common division of labor. Some people possess leadership abilities that are better able to organize people than others. Some people lack that.
P1: Minha preocupação principal a respeito do anarquismo é: por que não podemos dizer que o governo é simplesmente outra divisão do trabalho? Pois pode ser que algumas pessoas sejam melhores, ou possuam habilidades naturais mais adequadas para governar do que outras. Não estou dizendo que a anarquia não possa funcionar mas, unicamente a partir de evidência empírica, o fato de nenhuma das regiões industrializadas do mundo estar em estado de anarquia, nem ter ficado muito tempo em estado de anarquia diz algo acerca da estabilidade ou viabilidade de sociedades humanas complexas no estado presente. E também, voltando ao que eu disse antes, podemos conceber a relação entre o governante e o governado como apenas outra divisão comum do trabalho. Algumas pessoas possuem habilidades de liderança melhores para organizar as pessoas do que outras. Algumas pessoas não têm essas habilidades.
RL: On the division-of-labor point, to the extent the division of labor is voluntary – if you’re better at something-or-other than I am, and so you do it, and then I buy the services from you – as long as it’s voluntary, that’s fine. But when we’re talking about division of labor and some people are better at ruling than other people – well, if I consent to your ruling me – maybe I’m hiring you as my advisor because I think you’re better at making decisions than I am, so I make one last decision which is to hire you as my advisor, and from then on I do what you say – that’s not government; you’re my employee, you’re an employee that I follow very religiously. But, ruling implies ruling people without their consent. That the division of labor is beneficial to everyone involved doesn’t seem to apply in cases where one group is forcing the other to accept its services.
RL: Quanto ao ponto da divisão do trabalho, na medida em que a divisão do trabalho for voluntária – se você é melhor do que eu no tocante a algo, e você portanto o faz, e eu então compro os serviços de você – enquanto isso for voluntário, tudo bem. Quando, porém, estamos falando de divisão do trabalho e algumas pessoas são melhores em governar do que outras pessoas – bem, se eu consentir que você me governe – talvez eu esteja contratando você como meu consultor porque eu ache que você é melhor em tomar decisões do que eu, e portanto eu tomo uma decisão última que é contratar você como meu consultor, e a partir daí eu faço como você disser – isso não é governo; você é meu empregado, um empregado a quem eu sigo muito religiosamente. Governar, entretanto, implica em governar as pessoas sem o consentimento delas. A característica de a divisão do trabalho ser benéfica para todos os envolvidos não parece aplicar-se em casos onde um grupo força o outro a aceitar seus serviços.
And on the question of why we don’t see any industrialized country that has anarchy – of course, we also don’t see any industrialized county that has monarchy. But then industrialized countries haven’t been around all that long. There was a time when people said every civilized country (or just about every civilized country) is a monarchy. You find people in the seventeenth and eighteenth centuries saying: look, all the civilized countries are monarchies; democracy would never work. And by saying democracy would never work, they meant not just that it would have these various bad results in the long run; they just thought it would completely fall apart into chaos in a matter of months. Whatever you may think of democracy, it was more viable than they predicted. It could last longer, at any rate, than they predicted. So, things are in flux. There was a time when it was all monarchies. Now it’s all semi-oligarchical democracies. The night is young.
E quanto à questão de por que não vemos nenhum país industrializado que tenha uma anarquia – obviamente, também não vemos nenhum país industrializado que tenha uma monarquia. Mas os países industrializados não existem há tanto tempo. Houve uma época na qual as pessoas diziam que todo país civilizado (ou quase todo país civilizado) era uma monarquia. Você encontra pessoas nos séculos dezessete e dezoito dizendo: vejam, todos os países civilizados são monarquias; a democracia nunca funcionará. E ao dizerem que a democracia nunca funcionaria elas queriam dizer não apenas que ela daria todos aqueles maus resultados no longo prazo; elas achavam que tudo cairia aos pedaços, entrando no caos, em questão de meses. O que quer que você pense da democracia, ela foi mais viável do que aquelas pessoas predisseram. Ela podia durar mais, de qualquer forma, do que predisseram. Assim, as coisas estão em fluxo. Houve uma época em que tudo era monarquia. Agora são democracias semioligárquicas. A noite é criança.
Q2: Roderick, surely we all appreciate the wonderful work that you do here at the Mises Institute, but Ludwig von Mises wasn’t an anarchist. So, I was wondering if you could tell us more about your institute and the Molinari Institute.
P2: Roderick, por certo apreciamos o belíssimo trabalho que você faz aqui no Instituto Mises, mas Ludwig von Mises não era anarquista. Assim, eu estava pensando se você não poderia dizer-nos mais acerca do seu instituto e do Instituto Molinari.
RL: Mises wasn’t really a Misesian! [laughter] Well, I have my own think tank. It is somewhat smaller than this one. I’m not sure whether it has a physical size. It does consist of more than one person. The board of directors is three people. So, it’s three people plus a website. Someday it will rule the Earth – in an anarchic way. Right now mostly what it does is put up various libertarian and anarchist classics on the website. There’s an offshoot of it – the Molinari Society, which is the same three people plus one more. Insofar as, as Hayek said, social facts consist in people’s attitudes toward them, the more people who think that it exists, the more it exists. The whole thing exists a little bit more because we got affiliated with the American Philosophical Association. The Molinari Society is hosting a session at the American Philosophical Association meetings in December. So t is actually going to be a Molinari event in December involving the three-people-plus-another-one. So that’s the grand and glorious progress. Its mission is to overthrow the government. We’ve applied for tax-exempt status from the government. (We’ll see just how dumb they are! We worded the description somewhat differently when we sent in the forms.)
RL: Mises não era em realidade misesiano! [risadas] Bem, tenho meu próprio instituto de pesquisa interdisciplinar. É um tanto menor do que este. Não estou seguro quanto a ele ter tamanho físico. Consiste em mais de uma pessoa. A diretoria é composta de três pessoas. Portanto, são três pessoas mais um website. Algum dia ele governará a Terra – de maneira anárquica. No momento a maior parte do que ele faz é colocar diversos clássicos libertários e anarquistas no website. Há um rebento dele – a Sociedade Molinari, que é as mesmas três pessoas mais uma. Enquanto, como disse Hayek, os fatos sociais consistirem nas atitudes das pessoas em relação a eles, quanto mais pessoas acharem que ela existe, mais ela existirá. A coisa toda existe um pouquinho mais porque nos filiamos à Associação Filosófica Estadunidense. A Sociedade Molinari é anfitriã de uma sessão nas reuniões da Associação Filosófica Estadunidense em dezembro. Assim, haverá realmente um evento Molinari em dezembro envolvendo as três-pessoas-mais-uma. Portanto esse é o grandioso e glorioso progresso. Sua missão é derrubar o governo. Solicitamos condição de isenção de tributos do governo. (Verificaremos o quanto eles são estúpidos! Usamos na descrição palavreado um tanto diferente ao enviar os formulários.)
Q3: I was going to bolster the point you made about the Randian objection that market transactions require some sort of legal background to them. The fact that there are black markets belies this. If you’re a cocaine dealer and you get ripped off by your middleman, you certainly can’t go to a court and   say “Go arrest him, he didn’t give me the cocaine he was supposed to”…
P3: Eu queria reforçar a argumentação que você apresentou acerca da objeção randiana de que as transações de mercado requerem algum tipo de plano de fundo legal para elas. O fato de haver mercados paralelos desmente isso. Se você for um traficante de cocaína e for enganado por seu intermediário, você certamente não poderá ir a um tribunal e dizer “Prendam-no, ele não me entregou a cocaína que devia ter-me entregue”…
RL: I’m sure someone’s tried it…
RL: Tenho a certeza de que alguém deve ter tentado fazer isso…
Q3: …Now, of course, this very easily can lead to violence, but don’t forget that there are people actively trying to stop you, not just that they’re not letting you arbitrate, they’re actively stopping you from doing it.
P3: … Agora: obviamente, isso pode muito facilmente levar à violência, mas não nos esqueçamos de que há pessoas tentando ativamente impedir você, não é que apenas não estejam deixando você arbitrar, estão ativamente impedindo que você faça isso.
RL: David Friedman makes the argument that one of the main functions of the Mafia is to serve as something like a court system for criminals. That’s not all it does, but the Mafia takes an interest in what sorts of criminal goings-on are going on in its territory – because it wants its cut, but it also doesn’t want gangs having shoot-outs with each other in its territory. If you’ve got a conflict, you agreed to some kind of criminal deal with someone and they cheated you, and it happened in the jurisdiction of some particular Mafia group, they’ll take an interest in that as long as you’re   providing your cut. If they’re not cooperating, the Mafia will act as something kind of court-like and policelike. They’re sort of cops for criminals.
RL: David Friedman argumenta que uma das principais funções da Máfia é servir como algo semelhante a um sistema de tribunais para criminosos. Não é tudo o que ela faz, mas a Máfia tem interesse em que tipos de empreendimentos criminosos acontecem em seu território – porque quer a parte dela, mas também porque não quer tiroteios entre quadrilhas em seu território. Se houver conflito, se você tiver  concordado com algum tipo de acordo criminoso com alguém e ele tiver enganado você, e isso tiver acontecido na jurisdição de algum grupo mafioso específico, este terá interesse nisso, desde que você esteja contribuindo com sua parte. Se a outra parte não cooperar, a Máfia agirá como uma espécie de tribunal e policial. Ela é uma espécie de polícia para criminosos.
Q4: What will prevent protection companies from becoming a protection racket?
P4: O que impediria as empresas de proteção de se tornarem um esquema de venda de proteção?
RL: Well, other protection companies. If it succeeds in doing it, then it’s become a government. But during the time it’s trying to do it, it hasn’t yet become a government, so we assume there are still other agencies around, and it’s in those other agencies’ interest to make sure that this doesn’t happen. Could it become a protection racket? In principle, could protection agencies evolve into government? Some could. I think probably historically some have. But the question is: is that a likely or inevitable result? I don’t think so because there is a check-and-balance against it. Checks-and-balances can fail in anarchy just like they can fail under constitutions. But there is a check-and-balance against it which is the possibility of calling in other protection agencies or someone starting another protection agency before this thing has yet had a chance to acquire that kind of power.
RL: Bem, outras empresas de proteção. Se ela for bem-sucedida em fazer isso, tornar-se-á um governo. Durante, porém, o tempo em que estiver tentando fazer isso, não se terá ainda convertido num governo, e portanto presumimos haver outros órgãos existentes, e é do interesse desses outros órgãos assegurar que isso não aconteça. Poderá tornar-se um esquema de venda de proteção? Em princípio, poderão órgãos de proteção evolver tornando-se governo? Alguns sim. Acredito que historicamente alguns se tornaram. A questão, porém, é: tratar-se-á de um resultado provável ou inevitável? Penso que não, porque há controle cruzado contrário a isso. O controle cruzado pode falhar na anarquia do mesmo modo que pode falhar nas constituições. Há porém um controle cruzado contra isso que é a possibilidade de recorrer a outros órgãos de proteção ou a alguém que esteja começando outro órgão de proteção antes que essa coisa tenha tido a condição de adquirir aquele tipo de poder.
Q5: Who best explains the origin of the state?
P5: Quem melhor explica a origem do estado?
RL: Well, there’s a popular nineteenth-century theory of the origin of the state that you find in a number of different forms. It’s in Herbert Spencer, it’s in Oppenheimer, and you find it in some of the French liberals like Comte and Dunoyer, and Molinari – who wasn’t really French, he was Belgian (“I am not a Frenchie, I’m a Belgie!”). This theory – they had different   versions of it, but it’s all pretty similar – was that what happens is that one group conquers another group. Often the theory was that a sort of huntermarauder group conquers an agricultural group.
RL: Bem, há uma teoria popular do século dezenove acerca da origem do estado que a gente encontra em diversas formas diferentes. Ela está em Herbert Spencer, em Oppenheimer, e a gente a encontra em alguns dos liberais franceses tais como Comte e Dunoyer, e em Molinari – que não era em realidade francês, e sim belga (“Não sou francês, dou belga!”). Essa teoria – eles tinham versões diferentes dela, mas todas bastante parecidas – era a de que o que acontece é um grupo conquistar outro grupo. Amiúde a teoria aventava que uma espécie de grupo caçador-saqueador teria conquistado um grupo agrícola.
In Molinari’s version of it what happens is: first, they just go and kill people and grab their stuff. And then gradually they figure out: well, maybe we should wait and not kill them because we want them to grow more stuff next time we come back. So instead, we’ll just come and grab their stuff and not kill them, and then they’ll grow some more stuff, and next year we’ll be back. And then they think, well, if we take all their stuff, then they won’t have enough seed corn to grow it, or they won’t have any incentive to grow it – they’ll just run away or something – so we won’t take everything. And finally, they think: we don’t have to keep going away and coming back. We can just move in. And then gradually, over time, you get a ruling class and a ruled class. At first, the ruling class and the ruled class may be ethnically different because they were these different tribes. But even if, over time, the tribes intermarry and there’s no longer any difference in the compositions, they still have got the same structure of a ruling group and a ruled group.
Na versão de Molinari o que acontece é: primeiro, eles vão e matam pessoas e tomam o que é delas. E então gradualmente ponderam: bem, talvez devêssemos esperar e não matá-los, porque queremos que eles cultivem mais coisas da próxima vez em que voltarmos. Então em vez do que fizemos simplesmente viremos e tomaremos o que é deles e não os mataremos, e então eles cultivarão mais coisas, e no ano seguinte voltaremos. E então, pensam eles, bem, se tomarmos tudo o que é deles, eles não terão suficientes grãos de milho de boa qualidade para plantar, ou não terão nenhum incentivo para plantá-los – apenas ir-se-ão embora ou coisa da espécie – e assim não tomaremos tudo. E, finalmente, pensam: não temos de continuar a ir e voltar. Podemos simplesmente mudar-nos para cá. E então gradualmente, ao longo do tempo, criam-se uma classe governante e uma classe governada. De início a classe governante e a classe governada podem ser etnicamente diferentes por provirem de tribos diferentes. Entretanto, mesmo se, ao longo do tempo, as tribos se casarem entre si e não mais haja diferença nas composições, elas ainda terão a mesma estrutura de um grupo governante e um grupo governado.
So that was one popular theory of the origin of the state, or at least the origin of many states.
Assim essa foi uma teoria popular acerca da origem do estado, ou pelo menos da origem de muitos estados.
I think another origin you can see of some states or state-like things is in the same sort of situation but in cases where they succeed in fending off the invaders. Some local group within the invaded group says: we’re going to specialize in defense – we’re going to specialize in defending the rest of you guys against these invaders. And they succeed. If you look at the history of England, I think this is what happens with the English monarchy. Before the Norman conquest, the earliest English monarchs were war leaders whose main job was national defense. They had very little to do within the country. They were primarily directed against foreign invaders. But it was a monopoly. (Now, the question is how they got that monopoly. I’m not so sure.) But once they got it, they gradually started getting involved more and more in domestic control as well.
Creio que outra origem que podemos encontrar de alguns estados ou de configurações tipo estado está no mesmo tipo de situação mas em casos nos quais eles foram bem-sucedidos em rechaçar os invasores. Algum grupo local dentro do grupo invadido diz: vamos especializar-nos em defesa – vamos especializar-nos em defender o resto de vocês contra esses invasores. E foram bem-sucedidos. Se vocês olharem a história da Inglaterra, creio que isso é o que aconteceu na a monarquia inglesa. Antes da conquista dos normandos, os primeiros monarcas ingleses eram líderes de guerra cujo trabalho principal era a defesa nacional. Eles tinham muito pouca coisa a fazer dentro do país. Estavam precipuamente dirigidos contra invasores externos. Mas era um monopólio. (Agora, a questão é como eles obtiveram tal monopólio. Não tenho certeza.) Uma vez, porém, tendo-o obtido, gradualmente começaram a tornar-se cada vez mais envolvidos também no controle interno do país.
Q6: Hector, Murray’s story about Hector? It’s very much similar to this story and its on the web, and it’s just a beautiful story.
P6: Heitor, a história de Murray acerca de Heitor? É muito parecida com essa história, e está na web, e é simplesmente uma linda história.
RL: Which story about Hector is this?
RL: Que história acerca de Heitor é essa?
Q6: The first one about why do we have to leave, let’s just stay there…
P6: A primeira, acerca de por que temos de ir-nos, simplesmente fiquemos lá…
RL: Oh, yeah.
RL: Oh, sim.
Q6: Murray did a beautiful job on that, and I would recommend it.
P6: Murray fez esplêndido trabalho, e eu o recomendaria.
RL: What’s that in?
RL: Onde está?
Q6: It’s on LewRockwell.com.
P6: Em LewRockwell.com.
RL: It’s one of the Rothbard articles on there? Okay.
RL: É um dos artigos de Rothbard lá? Okay.
Q6: I wanted to buttress your thesis in several ways. One, another argument in favor of anarchy is that if you really favor the government, you have to favor world government because right now there’s anarchy between governments, and we can’t have that if you want government. Very few people favor world government, and it’s incompatible with the case against anarchy.
P6: Eu queria robustecer sua tese de diversas maneiras. Uma, outro argumento em favor da anarquia é que se você realmente for a favor do governo, terá de ser a favor do governo mundial, porque neste exato momento há anarquia entre os governos, e não podemos ter isso se quisermos governo. Muito poucas pessoas são a favor do governo mundial, e isso é incompatível com a argumentação contra a anarquia.
RL: There has to be a final final arbiter.
RL: Tem de haver um árbitro final.
Q6: Another buttress is the issue about negotiations. The way that the time zones came up and the way that the standard gauge for railroads came up was through negotiations between railroad companies.
P6: Outro reforço é a questão das negociações. Os modos como surgiram os diversos fusos horários e como surgiu a bitola padrão para ferrovias foi por meio de negociações entre empresas ferroviárias.
RL: And the internet. Some of that is legal, but other aspects are just customary.
RL: E a internet. Alguma coisa é legal, mas outros aspectos apenas consuetudinários.
Q6: And another support is this thing about the cartel. At one time the National Basketball Association had eight teams and they wouldn’t allow any other people to come in, so they started the ABA (the American Basketball Association, with the red-white-and-blue ball). So if you had this cartel that wouldn’t let other people in, they could start another cartel.
P6: E outro reforço é essa coisa acerca do cartel. A certa altura a Associação Nacional de Basquetebol tinha oito equipes e não permitia que ninguém mais entrasse, e assim começaram a ABA (Associação Estadunidense de Basquetebol, com a bola vermelha, branca e azul). Então, se havia aquele cartel que não admitia ninguém mais, começaram outro cartel.
RL: What happened to them?
RL: O que aconteceu com eles?
Q6: They eventually merged. Now there are like thirty teams in the NBA. And if that’s too few, yet another league can come up.
P6: Acabaram se fundindo. Agora há cerca de trinta equipes na NBA. E se for pouco, outra liga poderá surgir.
RL: The crucial point is that in the Austrian definition of competition it’s not number of competing firms, it’s the free entry. As long as it’s possible to start another one, that can have the same effect as actually doing it.
RL: O ponto crucial é que na definição austríaca de competição não se trata do número de firmas competidoras, e sim da livre entrada. Enquanto for possível começar outra, isso terá o mesmo efeito que realmente fazê-lo.
Q6: In addition to the dissolution of a cartel, you can have other cartels competing against the first cartel.
P6: Além da dissolução de um cartel, pode-se ter outros cartéis competindo com o primeiro cartel.
RL: Did the XFL have any good effect? [laughter]
RL: A XFL teve qualquer bom efeito? [risos]
Q6: I wanted to ask a question. In your answer to the first question, where you said you were appointing him as your guide – does this mean you take my side –
P6: Queria fazer uma pergunta. Na resposta à primeira pergunta, quando você disse que estava nomeando-o seu guia – significa isso que você está ficando do meu lado –
RL: No.
RL: Não.
Q6: – on alienability?
P6: – na questão da alienabilidade?
RL: No, no. That’s why I said he was the employee rather than the owner. I believe in inalienable rights.
RL: Não, não. Eis porque eu disse que ele era o empregado e não o dono. Acredito em direitos inalienáveis.
Q6: He’s an employee, yet you can’t fire him…
P6: Ele é um empregado, e no entanto você não pode demiti-lo…
RL: No, I can fire him. He’s my advisor, I always will follow him – but I haven’t given up my right to fire him.
RL: Nada disso, eu posso sim demiti-lo. Ele é meu consultor, eu sempre o sigo – mas não abri mão de meu direito de demiti-lo.
Roderick Long teaches philosophy at Auburn University. This is a transcription of an informal talk at the Mises Institute, given during the Mises University, August 6, 2004, at a session called the "Mises Circle." Students sat with Professor Long in the Conservatory, from 7:00-8:00pm. It was transcribed from the MP3 by Revi N. Nair. The MP3 is available at this URL: http://mm.mises.org/?/mp3/MU2004/Long2.mp3   
Roderick Long ensina filosofia na Auburn University. Esta é uma transcrição de uma palestra informal no Mises Institute, proferida em 6 de agosto de 2004, numa sessão chamada de "Círculo de Mises." Os estudantes sentaram-se com o Professor Long na Estufa, das 7:00 às 8:00 horas da noite. A transcrição foi feita do MP3 por Revi N. Nair. O MP3 está disponível neste URL: